A bengala da fé


A Esfinge cortava o caminho do viajante e propunha um enigma: “qual é o animal que anda com quatro patas, pela manhã; duas ao meio-dia e três ao entardecer?”. E punha contra a parede: “ou resolves, ou te devoro!”. A resposta, hoje, é simples: o homem, pela manhã (início da vida) engatinha; ao meio-dia (em plenitude) em pé; ao entardecer (velhice), auxiliado por uma bengala. Não há estatística de quantos foram devorados.

Em casa, compramos uma bengala de madeira, clara (creio que é bege), utilizada por dona França (minha mãe), quando restaurava uma bacia lascada; hoje o seu Manoel (meu pai), faz uso dela, enquanto se recupera das aplicações de radioterapia. Propus que marcássemos a bengala com a primeira letra de todos os que a utilizaram e que já começássemos a organizar a fila daqueles que ainda vão utilizá-la.

Mas a bengala que auxilia a caminhar e uma ideia muito próxima das bengalas que utilizamos: há uma para a memória; outra para os sentimentos e, até, para a religião. Foi esta que me impressionou quando ouvi o que as pessoas fazem na relação com o Divino, independente de religião: um Deus refém. “Eu faço tal coisa, mas tens que me retribuir”. Também com seus Santos de devoção: há uma lenda de que Santo Antônio, para os casamenteiros, deve ter o corpo separado da cabeça, ou mergulhado em água, até que arrume marido ou mulher.

Estranho jeito de fé. Fé é exatamente isto: colocar-se nas mãos de Deus e também possíveis problemas. Não há exigências, para que também não haja desilusão quando as coisas não acontecem como queríamos. A resposta de Deus é sempre uma graça, alcançada não por merecimento, mas por ter depositado a vida em suas mãos. Seduziu-me uma frase: “não apresente o seu problema para Deus, mas apresente Deus para o seu problema”. Ele é bem maior. Não é apenas um jogo de palavras, mas uma verdade: mesmo que não entendamos, em determinado momento, o que se passa, a melhor forma de enfrentar o destino é repetir o já gasto refrão: “segura na mão de Deus. E vai”.