À sombra de um Ingá


Plantamos em frente à nossa casa dois pés de Ingá. No início, pequenos arbustos no meio da calçada, levaram quase dez anos para se transformar em frondosas e acolhedoras copadas. Veio de um vizinho, o Marcos, a sugestão de fazer uma limpeza por baixo. Tinha razão, foi então que apresentaram mais uma de suas características: a acolhida. Reparei que, em dias quentes era ali embaixo que as pessoas paravam, refrescando-se e podendo continuar a sua caminhada. As crianças ainda subiam por seu tronco, ou colhiam suas pequenas vagens, com a volúpia de quem degusta um manjar.

O Ingá não dura muito tempo, apenas um pouco mais do que uma vida humana e não atravessa séculos. O que me leva a pensar que a sua função é exatamente esta: servir aos caminhantes. Muito próximo do sentido da própria existência humana, pois não duramos tanto quanto desejamos e quando pensamos que nossas obras nos perpetuarão pela eternidade, elas são tragadas pelo tempo ou pela natureza.

Mais ou menos como, agora, está acontecendo na Itália. Além das vidas ceifadas pelos terremotos, ainda há o registro de monumentos históricos destruídos, mostrando-se efêmeros diante de um fenômeno natural. A natureza rebela-se diante da nossa altivez com as “marcas da civilização” – templos, palácios, monumentos – e tem a força dos elementos naturais, não deixando dúvidas de que a raça humana é hospedeira neste Planeta.

É uma dura lição: para o Homem, o seu “eterno” acaba sendo efêmero; como dizia o poetinha: “que seja eterno enquanto dure”. Não quero deixar algo que perdure pelos séculos. Só gostaria de viver bem, hoje, junto àqueles com quem tenho o privilégio de conviver, pois o que se eterniza e nos diferencia de todos os demais seres é um olhar, um gesto, ou apenas uma carícia. Mais ou menos aquilo que me dá o Ingá, praticamente sem pedir nada em troca.

O Mestre dos Mestres levou-nos a olhar os Lírios nos campos, mostrando que nem o rei Salomão, em todo o seu esplendor e sabedoria, conseguiu ostentar tanta beleza. E uma flor tem a beleza do que se sabe efêmera, pois existe hoje e não mais existirá amanhã. Mesmo assim, cada um de nós teima em querer domar o tempo e as circunstâncias da História. Isto não é possível, pois somos finitos e necessitamos aprender a viver cada momento presente intensamente, pois se vivemos apenas do passado, nos frustraremos, e se quisermos viver do futuro, nos angustiaremos. Acho que o melhor jeito é à sombra de um Ingá.