A arte de recomeçar


Temos que admitir que, depois de algum tempo de intensa atividade profissional, em certos momentos, precisamos de quem nos ajude a “desaposentar”, isto é, sejamos remotivados para atuar melhor, especialmente para quem trabalha com educação e sabe que, enquanto voa uma “ninhada”, há outra a ser preparada.

Gostei muito do filme Ao Mestre com Carinho (1966), em que um professor – o ator Sidney Poitier - é enviado para um bairro carente, onde alunos desmotivados querem tudo, menos dedicar-se ao estudo. Depois de um semestre, o mestre conseguiu cativar a garotada que encerra as atividades com um desempenho incrível em sala de aula e uma bela festa, que ninguém é de ferro. O mais interessante é que, ao final, entra numa sala, pega um casal em “altos amassos”, é reconhecido e, rindo, dizem: “então é o professor que vai nos dar aula no próximo semestre?” Ele concorda e sai, também rindo, dando-se conta de que a vida continua. E que é preciso estar preparado para recomeçar.

Pois é a sensação que tenho a cada final de semestre letivo na Faculdade. O convívio deste momento leva a pensar com carinho em cada um dos alunos: suas possibilidades e dificuldades e saber que, como a águia que joga seus rebentos em direção ao abismo para que possam utilizar suas asas pela primeira vez, também os alunos estão prontos para atuar na sociedade e no mercado.

Mas, cada caso é um caso. Cada olhar respeitoso, carinhoso, suplicante, carente, feliz, desafiante, torna-se uma mistura de sentimentos próprios da idade e de saber que é hora de fazer um vôo solo, mas sofrido por ter que se desgrudar da segurança dos bancos acadêmicos. Não há chances de voltar atrás. Mesmo com o stress de final de curso e as eternas juras de amor e de convivência, é hora de partir, encontrar novos espaços e cumprir mais uma etapa da vida.

Também para nós, é um novo recomeçar. O doce sabor vivenciado na experiência única ao ajudarmos a superarem uma etapa fundamental para toda a sua existência, nos deixa com a sensação do dever cumprido. Mas já nos aponta para o futuro, onde outros meninos e meninas nos esperam, ansiosos por enfrentar seus trabalhos de conclusão de curso, disciplinas finais da faculdade e uma festa de formatura...

Ao final, o importante é que, na experiência de quem trabalha para auxiliar no processo de formação, haja um coração aberto e disponível para novas experiências em que, passando o tempo, renova-se a arte de recomeçar.