Acabou a inocência


A manchete passou, praticamente, despercebida: “Israel autoriza a saída de estrangeiros da Faixa de Gaza”. Normal, se pensarmos pela ótica do governo israelense, que, embora não se preocupe muito com a opinião pública internacional no presente caso, também sabe das conseqüências em registrar um alto número de mortes de estrangeiros no confronto.

A mesma liberdade não foi dada aos palestinos residentes na região, apesar de constatado o número de mortos civis, cinicamente considerado como “baixas técnicas”. Mesmo sabendo que os grupos armados utilizam a prática de se instalar em meio à população para atacar seu inimigo, não se admite que inocentes paguem por uma guerra que não provocaram e da qual são tão vítimas quanto os israelenses.

Muitas matérias veiculadas recentemente mostram populares de ambos os lados demonstrando boa vontade para com seus vizinhos e que as fronteiras, demarcadas fisicamente ou não, são convenções que podem ser vencidas com facilidade se forem superados os interesses de grupos organizados.

A História registra que a Guerra do Vietnã somente acabou quando as imagens da televisão chegaram aos lares dos Estados Unidos, a cores, no horário nobre da noite, aparecendo seus jovens, mortos numa bravata que, até hoje, os próprios americanos querem esquecer. Se estamos embasbacados com o que vemos, hoje, a preocupação maior deve ser com o que ainda pode acontecer, pois, diante da apatia das potências internacionais, aquela região do mundo está se transformando no que os entendidos chamam de “um barril de pólvora”.

Não há inocência em política. Todas as guerras, embora com desculpas de origem étnicas, credos religiosos ou diferenças culturais, acontecem por interesses de poder político ou econômico. E, muitas vezes, andam juntos. Não há inocência nem do lado de Israel, nem no caso palestino, mas a comunidade internacional não pode se mostrar indiferente diante de uma situação que, alastrando-se, terá conseqüências imprevistas, pois ambos os lados têm ao seu alcance artefatos nucleares.

Se este cenário ainda não for suficiente, há o sofrimento da população, sacrificada por interesses de seus supostos representantes. Também neste caso, como dizia o título de um filme (e, creio, que de um livro), aconteceu a perda da inocência. O pior é que ela acabou marcada nos corpos de crianças, jovens e adultos. Juntados a cada final de bombardeio.