A cultura do "deixa assim"


Ouvi muitas histórias até ficar convicto de que a cultura do “deixa assim” já vigora entre nós. Seu “parágrafo único” diz que é preferível não se incomodar quando precisamos fazer qualquer esforço para que nossos direitos sejam reconhecidos e respeitados. Não tenho procuração para falar em nome de ninguém, mas vou citar aqui casos pessoais e de amigos.

No primeiro deles, minha mãe foi submetida, há alguns anos, a uma cirurgia de hérnia, que não cicatrizava. Depois de debilitada, foi submetida à nova cirurgia onde foi constatado que havia sido “esquecido” no local da cirurgia um corpo estranho: um pedaço de algodão. Infelizmente, por uma espécie de corporativismo profissional “sumiu” a prova e ninguém quis testemunhar a respeito.

Recentemente, uma amiga foi induzida a realizar uma cirurgia por dois nódulos constatados. Inicialmente, o conhecimento de que a cirurgia prevista – geral – não era necessária, pois constava apenas para retirar dinheiro de quem mantinha a paciente e, mesmo a cirurgia local, mostrou-se dispensável e desastrada já que, passado um ano, o nervo local não se recuperou e as dores são intensas, com profundas seqüelas.

Infelizmente, quando acontece, fica-se com a idéia de que foi conosco e que não vale a pena tomar providências. Vale, sim. O fato de deixarmos que alguém saia impune de uma ação nefasta aumenta o sentimento de impunidade: quem faz fica com a impressão de que nada lhe pode acontecer e, com certeza, repetirá o mesmo procedimento. Pior ainda, para quem não toma uma medida, fica o gostinho de que um delinqüente não foi punido, reforçando a idéia de que a Justiça não nos dá guarida.

Mas não é assim. Alguns dias atrás um amigo do meu sobrinho Renan deu-se conta de que uma operadora de telefonia, freqüentemente, lhe causava problemas. Fez o que todos deveriam fazer: sistematicamente, registrou queixa na própria operadora e, com o protocolo, o fez na ANATEL e na Justiça. Hoje, a causa foi julgada e definidos altos valores a serem ressarcidos por perdas e danos.

Embora ainda precise evoluir, a Justiça Brasileira já deu mostras de que, acionada, mesmo que demore, dá resultados. Não adianta é pensarmos que vivemos numa “terra sem lei”. Buscar a punição de quem desrespeita as mais saudáveis regras de convivência é um dos passos, assim como a cobrança para que se faça valer os nossos direitos e nunca, em hipótese alguma, deixarmos vingar a cultura do “deixa assim”.