À custa da desgraça


Uma exposição de pinturas de um artista latino, em Nova Iorque, vem despertando atenção por dois motivos: o primeiro é a inspiração para o tema; o segundo, a forma como trata a desgraça humana.

Não tendo conseguido espaço no circuito tradicional de galerias, a exposição teve que ser feita em espaços menores, porque o tema toca uma ferida muito difícil para os norte-americanos – e, porque não dizer, da humanidade: na guerra do Iraque, a forma como alguns prisioneiros de guerra foram tratados, violando os mais elementares direitos humanos.

A chaga é grande, daquelas que expõem a carne viva e que, por difícil de serem curadas, impossíveis de não se tornarem repugnantes.

Os quadros foram mostrados pelos telejornais e impressionam: prisioneiros sem roupas e com olhos vendados; animais sendo atiçados contra pessoas sem condições de defesa, amontoados sem respeito à privacidade e motivo de escárnio e deboche. As cenas são cruas e já comprovadas por material gravado nas próprias prisões.

Que é uma séria e grave denúncia, com certeza o é. Mais que isto: um clamor por justiça para pessoas que tiveram seu país invadido, seus costumes violados, sua religião posta em dúvida.

Seria o suficiente se o artista fizesse o mesmo que faz qualquer um outro: expõe e espera vender seus quadros como forma de sobrevivência. Não é o caso. O artista já afirmou que, embora tenha recebido avisos de que poderia sofrer represálias, nega-se a vender sua obra. Vai doá-la para que seja exposta como uma admoestação: que não se repita mais. Que ninguém se julgue no direito de ganhar em cima da miséria alheia!

Se a moda pega, vamos ter muita gente passando dificuldades! Pensei, primeiro, nos políticos que têm participado de todas as maracutaias recentes. Com este pensamento, certamente deixariam de ganhar propinas, intermediações, reajustes indecorosos, desvios, com a possibilidade de investimento, por exemplo, em saúde, educação moradia, segurança, etc.

“Não vou ganhar dinheiro à custa da miséria alheia!” A frase é lapidar, pois vem de alguém que tem consciência do que está acontecendo na sociedade em que vive, mas que não aceita transformar aquilo que sabe fazer – pintar – apenas em instrumento mercantilista.

De vez enquanto, uma aragem ética perturba a humanidade. Neste caso foi por uma exposição de pintura, que se tornou um claro sinal de que nem tudo está perdido.