A exclusão de um olhar


Numa sociedade como a nossa, multiplicam-se as exclusões: ela pode acontecer por questões financeiras, diferenças sexuais, deficiência física e mental ou pela educação. A primeira assusta porque coloca frente a frente os que esbanjam e os que sofrem para ter o mínimo necessário para a sobrevivência; a segunda resulta de acesas discussões por espaços sociais ou influência política; os deficientes dependem de que outros se conscientizem e respeitem seus espaços; a atual educação pública criou os alfabetizados funcionais – capazes de assinar o nome, ler placas, mas incapazes de articular uma reflexão.

Conheci um “educador” que sabia utilizar muito bem a tática do desarme de seus subordinados: desejando que alguém desistisse de sua argumentação, passava em revista, com o olhar, a “vítima”, de alto a baixo, parando, por exemplo, nos pés, colocando em dificuldades o interlocutor, sempre mais novo e com muito menos experiência.

Mas a minha preocupação é com as pessoas mais simples que, cumprindo seus afazeres, em vias públicas da cidade, em prédios ou nas instituições de trabalho, passam de olhos baixos, querendo se fundir com as ruas, as paredes e escadas, dando a impressão de que, se fossem observadas, poderiam constranger e atrapalhar.

Tenho visto o que acontece na Escola onde trabalho e a reação feliz do pessoal que atende a limpeza, a segurança, as secretarias, serviços de bar, quando são tratados como de fato merecem: gente, profissionais realizando uma função muito especial, pois sem cada um deles exercitando suas atividades, não teríamos como atender a nossa atividade de ensinar.

Há uma espécie de cumplicidade entre o que consegue fazer com que estas pessoas o encarem e respondam a um simples cumprimento, ou recebam um “muito obrigado”, em situações meramente convencionais. Ao invés do silêncio obsequioso de quem se confunde com o ambiente, baixando os olhos, de forma inexpressiva e entristecida, levanta a cabeça, orgulhoso do papel que desempenha, tendo uma fagulha de alegria e de valorização, porque se apropria do próprio destino de ser pessoa, de ser gente.

Realmente, as más palavras machucam, porque são como pancadas, que, ao serem ditas, pisam a pele, durante algum tempo; no entanto, um olhar de menosprezo, numa situação de carência de auto-estima, fere a carne e a alma, numa exclusão que pode ser sanada, mas sempre deixará a marca de uma dolorosa cicatriz.