A fragilidade do ser


É preciso vivenciar alguns dias num hospital para sentir, em toda a sua extensão, a absoluta fragilidade humana. Não há como não repensar conceitos estando no lugar onde a fronteira entre a vida e a morte teima em ser tão tênue e, muitas vezes, tão difícil de ser estabelecida.

Embora todos os problemas enfrentados pela população que é atendida pelo serviço público, quando se trata de saúde, é mais comum nos depararmos com profissionais que não medem esforços para auxiliar a superar situações em que nossas defesas estão baixas e tudo o que se quer em muitos momentos é um olhar de carinho, um sorriso e bastante tolerância.

Quando se chega a um leito hospitalar é porque todas as demais alternativas foram tentadas. E falharam. Então, é preciso conviver com situações inesperadas. São quadros que, lembrados depois, seguidamente estão entre o cômico e o trágico, porque fora do contexto em que se espera viver, normalmente.

Tive chances de estar com profissionais que se desdobram para atender desde situações extremamente simples, como a gentileza de alcançar uma refeição; passando pelo acompanhamento em questões íntimas; até a solidariedade em mostrar que alguém conduzido a uma Unidade de Tratamento Intensivo não significa o fim, mas um maior e melhor atendimento.

São corredores onde a vida teima em continuar e busca estabelecer aliados. De onde menos se espera, aparece alguém estendendo uma mão, oferecendo uma prece, alcançando um pensamento positivo.

Não creio que eu seja a pessoa mais adequada para qualquer atendimento desta área. No entanto, vale o ditado: “a dor ensina a gemer”. E a gente vai aprendendo que na hora do sofrimento, além de estar presente, é necessário fazer-se presente: passa-se por cima de pruridos; esquecem-se as diferenças; firma-se a solidariedade.

A enfermidade e a morte mostram o quanto nossas diferenças podem ser pequenas e insignificantes. Não valem a pena ser realçadas. É preciso conviver com pessoas que se ama e que nos respeitam e deixar de lado o negativismo.

Existir é uma experiência única, que realça o sentido quando é partilhada, em especial com aqueles que não têm a menor chance de nos retribuir. A não ser com um olhar carinhoso no limiar de um sonho, um débil afago no silêncio de uma lágrima, ou um beijo que carrega toda a entrega e a súplica pela cumplicidade de viver.