A imagem que fica


Em Jornalismo se diz que uma boa imagem vale mais do que mil palavras. E é verdade: quando nos deparamos com uma boa fotografia ou uma ilustração adequadamente colocada numa página, nosso olhar, automaticamente, é seduzido e direcionado.

Mas uma “boa” imagem não significa que ela seja positiva ou negativa em si. Ela é forte, muito forte, capaz de marcar nossa memória ao ponto de, muitas vezes, ficar registrada em nosso subconsciente pelo resto de nossas vidas.

Pois foi o que aconteceu comigo quando assisti a um dos muitos protestos de produtores rurais que pediam mais atenção ao governo. Fiquei chocado quando vi que aqueles mesmos homens que pediam sensibilidade para suas causas eram capazes de atirar sobre o asfalto tarros e tarros de leite!

Jogavam fora um alimento precioso e que falta na mesa de uma boa parcela da população brasileira. Mesmo que possa ser exatamente para chamar a atenção chocando a população, não creio que tenham granjeado simpatia. Ao contrário. Um professor com o qual se discutia tal ato falou em estratégia para sensibilizar o governo.

Até posso concordar, mas porque, então, não levar este produto até as portas dos palácios governamentais e convocar a população mais pobre para recebê-lo em doação?

Seria uma imagem de desprendimento e, ao mesmo tempo, de atendimento a uma carência social. Ficou o registro da televisão que mostrava o leite escorrendo pelo asfalto e indo se perder na sarjeta!

Quem lida com imagem lembra da máxima que diz: “à mulher de César, não basta ser honesta, tem que parecer honesta”.

É o que se pensa de movimentos que tomam tais atitudes, como os que recentemente trancaram as estradas, impedindo que demais produtores e mesmo o tráfego normal de pessoas acontecessem.

Conhecidos ficaram na estrada durante oito, dez horas, em viagens que são feitas na metade do tempo, impedidos, muitas vezes, de exercerem suas atividades profissionais.

Que simpatia angariam tais movimentos? Absolutamente nenhuma. Mesmo dentro de suas categorias.

Portanto, não basta pensar que trancar estradas ou jogar produtos alimentícios fora, ganhando a atenção da mídia, pode resolver problemas ou sensibilizar governos. Ao final, acaba judiando ainda mais uma população que já tem sobre si uma quota muito grande de sacrifícios. Como sempre, sobra para os mesmos.