Ainda não vi o Tholl


Sempre gostei de espetáculos circenses. Especialmente no que trazem de diferente, incrementando a arte do picadeiro com novas tecnologias e muita criatividade. Foi o que pude presenciar nas poucas ocasiões em que vi partes da apresentação do grupo Tholl, que saiu de Pelotas para ganhar o Brasil, num espetáculo que tem de tudo, em especial a comoção de ver o que se julga irrealizável próximo aos nossos olhos.

Confesso que nunca assisti a um espetáculo completo. A não ser num especial para televisão, gravado no Teatro São Pedro, em Porto Alegre. Mas se as partes que assisti já me encantaram, imaginei se pudesse ver o resto.

Mas duas pessoas idosas que estavam sentadas junto a mim num evento fizeram uma espécie de síntese: “Ainda não vi o Tholl”, foi a declaração. E era algo dito de forma sentida, como que frustrados por ainda não terem presenciado aquilo que milhares de brasileiros já viram. E vieram as explicações: horários, locais, deslocamentos... Não tenho estes problemas para ver o espetáculo, mas confesso que gostaria de ter uma apresentação ao final da tarde, inclusive para poder levar meus pais e sobrinhos.

De onde estava, comecei a relembrar os espetáculos circenses que vinham a Pelotas, desde as grandes companhias, que se instalavam junto ao centro da cidade, até as pequenas, juntamente com os “teatros” da época, que ficavam na periferia. Em sua trajetória, sempre ficava a idéia de que há um “encanto” em presenciar aquilo que é técnica, mas não só, apresenta a personalidade de cada ator e a graça com que é capaz de se apresentar e seduzir.

Pensei que este fato fizesse parte apenas da história dos mais velhos e me surpreendi quando a Vânia, minha sobrinha, levou seus filhos, pela primeira vez, a um circo e as crianças queriam voltar já no dia seguinte, e descrevia-os com os olhos brilhantes, bocas abertas, e mãos que perdiam suas funções, pois esquecidos os pacotes de pipoca, doces e amendoim.

Claro que vivemos novos tempos em que as mudanças foram necessárias. E aí é que reside a diferença: enquanto muitos grupos não souberam mudar, o Tholl já partiu da mudança para atrair multidões. As lonas foram substituídas pelos ginásios; o picadeiro pelos palcos; os cenários pelos recursos que a técnica coloca à disposição.

Acho que eu também poderia dizer que “ainda não vi o Tholl”. E, possivelmente, apesar do tempo passado, creio que no encantamento ainda encontraria um gurizinho de olhos brilhantes, boca aberta, com mãos tentando alcançar o infinito de um sonho.