A lei de Gerson


Estava juntando dados para escrever a respeito da propaganda de uma cerveja, que se julgando muito engraçada, resolveu despertar um velho estigma nacional: o jeitinho brasileiro.

Quando achávamos que havia ficado no passado – e esquecida - a célebre frase do jogador Gerson: “é preciso levar vantagem em tudo, certo?”, eis que das cinzas levanta-se um peso que preocupa ao se tratar de valores éticos e morais.

Pois a propaganda mostra um jogo entre o Brasil e a Argentina em que, em lances de gol certo para os vizinhos, a goleira dá um “jeitinho”, deslocando-se de um lado para o outro, e evita que a bola chegue às redes. Em compensação, quando o lance é brasileiro, tudo dá certo, novamente com uma pequena ajuda da trave movediça.

É o tipo de propaganda que pode ser engraçadinha, mas é, também, ordinária. Clóvis Rossi, da Folha de São Paulo, chamava a atenção que estão aí, exatamente, dois dos nossos maiores valores, em nível internacional: o futebol e a propaganda.

Então, porque é que precisamos de “jeitinho” para fazer estas coisas? Embora a destemperança de algumas das nossas lideranças políticas, que encontram desavenças onde elas não existem, os povos querem paz, condições dignas de subsistência e desenvolvimento.

Não vejo nas pessoas, com as quais converso do lado Uruguaio ou Argentino uma animosidade que alguns meios de comunicação teimam em passar. Será que não vale a pena destacar os aspectos positivos das atividades esportivas, ao invés das negativas? Se for o caso, então já temos, internamente, uma autêntica “guerra civil esportiva”, porque os ânimos acirrados das torcidas rivais tem mostrado cenas de pura selvageria!

Infelizmente, em momentos como o da Copa do Mundo, onde até pessoas que não se ligam ao futebol têm sua atenção despertada para os jogos, caiu mal uma propaganda que incita à quebra de valores.

Desde quando, só por ser supostamente uma seleção adversária, podemos nos dar ao luxo de que temos que ganhar de qualquer jeito?

Vai ser muito triste ensinar aos nossos jovens que a verdade é uma, mas que, na relação com aqueles que parte da mídia aponta como inimigos pode ser relativizada.

Foi infeliz a forma de dizer que temos orgulho de nossos símbolos nacionais, diminuindo os outros, para aumentar a nossa auto-estima. Historicamente, quem subiu às custas de outros, mais cedo ou mais tarde, acabou se dando mal. Torço para que não seja este o nosso caso.