A liturgia de um cargo


Senti-me orgulhoso de ser brasileiro assistindo a abertura dos Jogos Pan-Americanos. Um evento que reuniu com absoluta maestria o cerimonial apropriado para um momento como este ao espírito de festa com o ritmo, a vibração e a energia do Carnaval. Impecável no que era para encher os olhos, assim como quando tocou no coração: Adriane Calcanhoto, entoando uma cantiga de ninar, acompanhada por um coro de 90 mil vozes.

Senti-me triste quando uma parcela daquelas mesmas 90 mil vozes foi capaz de contaminar todo um estádio e dar conotação político-partidária a um evento esportivo que deveria privilegiar o congraçamento, vaiando o presidente Lula, assim como aquele desastrado momento em que, por praxe, o presidente deveria ter declarado oficialmente abertos os jogos e foi atropelado por uma outra autoridade.

Posso até não gostar da forma como o presidente se comporta, mas há algo que é inerente à figura do eleito: a liturgia do cargo – que exige postura de quem o ocupa e a consideração dos demais. A partir do momento em que o resultado é sacramentado nas urnas, pode-se até questionar judicialmente, mas, de fato, o eleito, no caso o presidente, é a autoridade constituída e deve ser, em todo e qualquer momento, respeitado.

Aquela imagem foi transmitida para o mundo inteiro que, na certa, como em outras ocasiões, ficou estonteada, não entendendo que um país onde a população elege um presidente com um percentual absolutamente significativo, passa, numa solenidade pública, a vaiá-lo. Confesso que nem eu. Pois se o próprio Lula parecia aturdido com o que estava acontecendo, eu me senti mal, pensando que roupa suja se lava em casa – quem sabe pelo voto – mas que não se joga porcaria no ventilador.

Procurei ler muito a respeito e, numa crônica, encontrei uma informação interessante: aqueles que estavam sentados nas cadeiras e arquibancadas eram pessoas com poder aquisitivo, que puderam comprar ingressos e, na sua maioria absoluta, branca. Em compensação, no grande palco em que se transformou o gramado do Maracanã, a maioria absoluta veio das favelas e dos morros, negra. E não vaiaram o presidente.

Não era o momento de se cobrar, por exemplo, investimentos feitos no Pan, muito superiores àqueles previstos inicialmente, todos com verbas públicas, portanto, retiradas de outros lugares, talvez os mais carentes como saúde, educação e segurança. Discordâncias político-partidárias têm sua hora e lugar e, naquele momento, faltou senso de grandeza e respeito que é preciso ter por alguém que exerce a função de mandatário número um da República.