Amar é


O tema daquela Missa era “Família” e foi interessante a lembrança do celebrante, quando no sermão buscou num filme da década de 70 – Love Story – a clássica frase: “amar é nunca ter que pedir perdão”.

Levei um bom tempo recordando a discussão que ela gerou na época e voltei a ter a mesma impressão: a frase é bonitinha, mas não é verdadeira.

Quando o filme foi lançado, marcou toda uma geração que suspirou no embalo dos encontros e desencontros do belo casalzinho romântico, que, muitas vezes, eles mesmos precisaram do perdão, para poderem se reconciliar.

Embora a frase seja o que se pode classificar de “redonda”, bem construída e com um alto apelo emocional, vou lembrar a expressão de um amigo: “é falsinha”.

De todas as vivências, próprias e ouvidas dos outros, a vida vai nos ensinando que amar é estar permanentemente disposto a se arrepender, quando se erra. E a aceitar o arrependimento alheio. O ato de pedir perdão e o ato de perdoar são de uma grandeza inimaginável, quando feitos de coração.

Só o faz quem é capaz de reconhecer as próprias limitações - que levam ao erro - e que atinge um alto grau de maturidade quando se é capaz de expressar o pedido de perdão. E tão grandioso quanto é pedir perdão, é a aceitação de que, mesmo machucados, ainda o outro é tão importante que merece ser absolvido.

Não sejamos inocentes ao ponto de pensar que o ato de ser perdoado apaga o erro cometido. Em alguns casos, sim, e a vida volta a percorrer os mesmos caminhos. Mas há outros em que mesmo a grandeza do ato de perdoar não consegue fazer com que se esqueça. Neste caso, alivia o sofrimento, ajuda a fechar a ferida, mas não impede a cicatriz.

Os maiores problemas se dão quando as pessoas passam a acumular ressentimentos, frutos de expectativas não realizadas ou não resolvidas no diálogo. Idealizamos pais, maridos e esposas, filhos, amigos, companheiros de trabalho e de vivências. E nos ressentimos quando vemos que, muitas vezes, eles são exatamente o que são: seres humanos, com seus problemas e com suas virtudes, pessoas que apenas querem tocar suas vidas, amar e serem amadas.

Talvez a frase pudesse ser reformulada e ficasse melhor de outra forma: “amar é sempre ter a chance de pedir perdão”. Complementada por um coração aberto que sabe, além de perdoar, amar e acolher.