A noção do sagrado


Em tempos em que se busca com tanta ênfase separar o que é o poder religioso do que é o poder político, nota-se que, embora as pesquisas ainda apontem por uma tendência cultural de se afirmar pertencer a uma determinada religião, na prática, o número dos praticantes é bastante reduzido. Mas é possível constatar que, num estado leigo, as pessoas querem fazer da religião o mesmo que fazem com qualquer serviço: tirar delas o que lhes interessa e descartar o que, pensam, não lhes diz respeito. Indiscriminadamente, procuram por uma bênção, um passe, um batismo, um casamento - cumprindo uma representação social - até atendendo aos pedidos de preparação mas, logo que obtém o almejado também voltam a se afastar. Até uma nova necessidade.

Não creio que seja intencional, mas há confusão entre o que é um ato religioso e um ato meramente social. O primeiro é a busca da interação com o sagrado, devendo ser preparado adequadamente no silêncio e na oração, para alcançar o que se almejou. O segundo é caracterizado pelo convívio em sociedade, onde a representação se dá por valores de poder, prestígio ou apenas de espetacularização da própria imagem.

Estamos confundido as coisas. O que deveria ser motivo para um estado de paz e serenidade, em todos os momentos de celebração – batismo, matrimônio, crisma, eucaristia – está sendo misturado com momentos de exposição social – cito como exemplo formaturas. A celebração de uma Missa, onde também se comemora uma colação de grau, somente deveria acontecer se as pessoas estivessem conscientes daquele ato. Não é o que se dá e vemos celulares tocando para a realização de negócios, conversas e risos que não cessam nem nos momentos mais sagrados e a preocupação por um desfile de vaidades.

Pensar que este momento pode ser motivo para o retorno ou que alguém se firme na convicção de uma religião é um raciocínio simplista. A experiência mostra que estas pessoas não voltam e sequer estão se importando com o que está acontecendo na celebração.

No caso de batismo e formatura, poderia se proceder como em casamentos: um momento especial, em separado, onde se pudesse oferecer o sacramento e, no segundo caso, uma bênção sobre os recém formados. Reunir Eucaristia e momentos de celebração social tem servido muito mais para desfiles de moda, com direito a bocas e trejeitos, do que para um ato religioso. Todos os ruídos inerentes a estes momentos fazem com que, na maior parte das vezes, se perca a noção do sagrado. Perdendo, também, o próprio sentido da celebração.