A ordem natural


Um acidente automobilístico na madrugada de uma grande cidade. O saldo: cinco adolescentes mortos. Uma imagem impossível de ser esquecida: um pai, sentado no asfalto, ao raiar do dia, querendo encontrar sentido em segurar a mão da filha já sem vida. E desejar que ela não estivesse ali.

Além da imagem, foi sua mensagem a um jornal, onde dizia que esta não era a ordem natural das coisas, que me chamou a atenção. Não é a primeira vez que ouço tal colocação. E ela vem carregada de sentimento e ressentimento, porque a vida mudou o que se esperava: que filhos carreguem seus pais para a morada final. E não o contrário.

A ordem foi alterada por diversos fatores: a violência no trânsito, a insegurança nos grandes centros e a perda, quando não a banalização, do sentido de existir.

Em muitos casos, não somos capazes de mostrar caminhos, restando uma geração que encontra no álcool ou nas drogas companhia capaz de satisfazer seus vazios e usa o carro como instrumento que inebrie seus sentidos. Não importa a que velocidade está; não interessa quem esta em sua companhia; não há razão em pensar que se coloca em risco a segurança própria e a dos outros.

Correm contra o medo, buscando compensar frustrações acumuladas. Gradativamente, já não há sentido pensar na realidade, mas no que o “fora da realidade” oferece. Existências são ceifadas quando deveria haver, ainda, muita vida pela frente. Sobra o sentimento de finitude por não saber o que mais poderia ter sido feito.

Também não sei. Prefiro pensar como aquele amigo que teve o filho jovem morto e para o qual restava apenas um consolo, enquanto caminhava para seu trabalho: cantar “segura na mão de Deus. E vai!”.

São muitos os pais que não conseguiram ajudar a vencer os problemas dos filhos e estes sucumbiram. No entanto, são poucos os pais, como o deste acidente, que até o último momento, ainda seguram a mão da filha para dizer: “mesmo agora, quando Deus chama teu espírito e aqui resta só aquilo que a terra há de comer, eu estou contigo!”.

Porque é assim mesmo: não temos todas as explicações; é frustrante ver que tudo o que sonhamos não se concretizou; é possível que toda a nossa teoria não tenha virado em realidade.

O que resta, o sentimento que transcende à vida, é o fato de que, entre um corpo estendido no chão e o aconchego de uma fé, há uma mão solidária, que nunca se nega a estar estendida. A mão de um pai. A mão de Deus. O fechamento do sentido de existir.