A Páscoa de Nossa Senhora


A Quaresma é o tempo de preparação para a Páscoa. São quarenta dias entre a Quarta-feira de Cinzas e o Domingo de Ramos, quando iniciamos a Semana Santa. Neste período, as igrejas cristãs pedem que se utilize o tempo para refletir a respeito de diversos momentos da vida de Jesus, com serenidade, sobriedade e algum sacrifício pessoal. Numa sociedade hedonista e de consumo, é difícil abrir mão de uma parcela da alimentação, de festas todos os finais de semana ou de um tratamento de beleza. Então, é um desafio: deixarmos a volta do próprio umbigo, para perceber o quanto somos privilegiados e que abandonar alguma coisa talvez possa ser uma bela experiência para o nosso amadurecimento.

No entanto, quando dou uma nova olhada sobre este período, penso em Maria, a mãe de Jesus, e o quanto deve ter sido difícil acompanhar o filho durante aqueles quase três anos, desde que assumiu sua vida pública até sua morte na Cruz. Em primeiro lugar, a própria concepção, cheia de dúvidas porque marcada pelas condições culturais da época em que, reconhecer que seria mãe sem ter “conhecido o homem”, no caso São José, equivalia a uma sentença de morte por apedrejamento.

Seu olhar sobre o menino que aperfeiçoava sua sensibilidade trabalhando com o pai, numa carpintaria; o anúncio de sua pregação e o seu acompanhamento por terras e povos que, na maior parte das vezes, eram adversos; chegar ao momento em que é acolhido em Jerusalém entre louvores e palmas, reconhecido como Filho de Deus; e, na mesma semana, estar aos pés de uma cruz, a mais sórdida de todas as mortes possíveis, reservada aos maiores criminosos, exatamente por ter afirmado que era o “Filho do Homem”!

São Lucas não conviveu com Jesus e, ao que tudo indica, passou muitas horas conversando com Maria para escrever o seu Evangelho. Ali são encontrados os mais belos depoimentos, os detalhes que escaparam aos outros evangelistas e a sensibilidade que somente uma mãe poderia registrar da lembrança de um filho. Foi um testemunho especial, que mostra porque Nossa Senhora foi capaz de viver a Páscoa de uma forma tão intensa!

Neste momento, não há como não dizer, em especial às mulheres: sonhem os mesmos sonhos de Maria - educar um filho para o Mundo e para a vida; encontrar um lugar ao seu lado, sem ser sombra ou obstáculo; e exercer a solidariedade até quando Ele dá seu último suspiro. Resta, então, um coração marcado por um sinal de fé: a fé de que este é um caminho e que compete a todos nós – homens e mulheres - fazê-lo melhor. Na esperança da Ressurreição!