Apenas um novo recomeço


A criança segura confiante a mão da mãe, que a olha com ternura e a balança docemente (mesmo que depois tenha uma lágrima para derramar); o idoso dormita segurando a bengala, procurando manter firme o aparelho de nebulização (tendo a mão de um anjo - a filha – como apoio); a senhora, discretamente, retoca a maquiagem num tocante ato de vaidade e apego à existência (fiscalizada pelo filho que levanta o olhar da revista e sorri). Em comum? Esperam por uma aplicação de radioterapia.

Os três estão em etapas diferentes: o idoso recém iniciou, mas já se sente melhor, pois venceu percalços que o tumor lhe causava, drenando a própria força; a criança sofre com a debilidade, mas isto não lhe importa enquanto tem o porto seguro da mãe onde ancorar; e a senhora já está finalizando o processo, confiante de que, desta vez, venceu e poderá voltar à vida simples do seu dia a dia. Nenhum deles tem grandes exigências. Mesmo sabendo que os profissionais se desdobram em gestos de carinho e atenção, querem sair desta rotina, para voltar a fazer o óbvio: brincar, cuidar da casa, dos filhos, andar pelas ruas, encontrar amigos, ou apenas ficar em silêncio quando têm vontade.

Sempre acho estranho que as pessoas precisem de grandes emoções ou de coisas absolutamente novas para encontrar sentido na vida. Nunca consegui ver a vida assim: gosto de viajar, mas adoro voltar pra casa; como é bom um quarto de hotel com uma janela voltada para o mar, mas melhor ainda é dormir no colchão do meu quarto; acho ótimo andar por lugares povoados por gente bonita, interessante, inteligente, mas é melhor ainda circular pela minha rua, pelas calçadas onde posso bater um papo com vizinhos e velhos conhecidos.

O drama que se espera encontrar quando alguém faz tratamento contra um câncer é superado pela esperança de transpor todos os obstáculos e seguir vivendo. O sentido está em vencer juntos – o que é muito bom – mas, se também acontecerem perdas, que se perca como a criança que segura na mão da mãe e tem certeza de que não está sozinha. Em algum momento, vamos nos dar conta de que não há finais, mas apenas um novo recomeço.