A perda da inocência


Seguidamente, ouvimos notícias de adultos que abusam sexualmente de menores. Um crime que deve merecer o rigor da lei, mas que também deve provocar uma reflexão a respeito dos cuidados que precisamos ter - enquanto pais e educadores – com nossos pré-adolescentes. O episódio mais recente aconteceu no município de Rio Grande, onde foram aliciadas cerca de 30 meninas, na faixa etária entre 13 e 14 anos, em troca de favores ou de pagamento em dinheiro.

Infelizmente, tornou-se comum acompanharmos informações deste tipo. No caso, um pai preocupado se deu conta de que a filha tinha gastos incompatíveis com o que a família lhe dava. Investigou e, praticamente, entregou de bandeja o criminoso nas mãos da polícia. No entanto, para cada pai atento, dez não conseguem identificar sinais de que algo está errado.

Contam como piada, mas é uma história que merece reflexão: o pai chega para o menino de 12 anos: “fulano, precisamos falar de algo sério”. O filho: “sem problemas, pai, sobre o que queres falar?” O pai, meio sem jeito: “sobre sexo”. E o garoto: “Está bem, o que queres saber a respeito?” A constatação é de que “a perda da inocência” está chegando cada vez mais cedo e jovens com 13 ou 14 anos, quando aceitam estes relacionamentos, sabem bem o que pode acontecer, pois já têm muitas informações sobre as atividades sexuais. O que não têm, é maturidade para utilizá-las.

Por este motivo, muitas vezes, transformam o corpo em “mercadoria” para alcançar o que desejam e não conseguem em casa. É uma maturação precoce e amarga, que impede o aprendizado feito em etapas seguras, em relações que envolvem um ritual, valorizando o carinho, a paixão e o amor.

Quem está errado? Claro que o aliciador está errado, mas também estão errados pais e educadores deixando de agir ao perceber sinais de que algo não vai bem e achando que apenas bons conselhos são o suficiente. Não o são. As “crianças” ainda estão sob a tutela dos pais, que são co-responsáveis pelos seus atos, inclusive legalmente.

Para o jovem, ao se dar conta do que perdeu, o resultado é a frustração. E um adulto frustrado é um problema social, pois carrega, pelo resto da vida, o sentimento de que poderia ter sido feliz. Feliz na inocência de quem descobre, por conta própria, na cumplicidade com o outro, que a sexualidade faz parte de algo maior: a afetividade. Infelizmente, fica a sensação do “ser usado” apenas para satisfazer caprichos, instintos e taras. Uma marca que poderia ser prevenida, mas não o foi, tornando-se um doloroso estigma para a alma.