A procissão dos desesperados


No início, sinais sem nenhum sentido de conjunto; virou uma evidência impossível de negar; por fim, um clamor: a violência tornou-se um ritual entranhado no convívio social, impossível de ser negado e alcançando todos os segmentos. Nos últimos dias, mostrou o seu pior lado envolvendo alguns de nossos jovens, já não apenas como vítimas ou na participação em crimes, mas também porque perderam a vida.

O que parecia ser uma notícia avulsa foi se somando às outras vindas pelos meios de comunicação e mostrando a reação daqueles que já não acreditam mais na segurança pública. A reação se deu com armas e o fim de vidas que recém desabrochavam. Junto à perda de um de nossos maiores patrimônios – a vida dos jovens – o que se vê é uma reação silenciosa, em que pessoas, sem nenhum histórico de violência, usam armas, participam de linchamentos, exterminam vidas.

Olhando para jovens que perambulam pelas ruas, com idade que já começa aos 10 ou 11 anos, flagra-se um olhar de desesperança por não encontrarem na família valores que acreditem valer a pena; uma educação que não lhes aponta claramente um futuro e uma sociedade que não garante perspectiva de trabalho e realização pessoal.

No início da década de 80, quando um jovem me procurava dizendo que os pais estavam passando dificuldades e precisavam de reforço no salário, facilmente, com dois, três telefonemas, garantia uma vaga. Hoje, é possível que dê cem telefonemas sem encontrar nada!

Quando olhei para um grupo que saia da Missa de sétimo dia da morte de um deles, ao fim de um assalto, tive um calafrio, porque era a imagem de uma horda que marchava contra a cidade. No entanto, durante a celebração, firmaram um grupo coeso e entrincheirado no seu silêncio. Mas, quando o padre Martinho rezou o Pai Nosso com os pais do garoto morto ao seu lado, os lábios não resistiram. E rezaram juntos.  

Há um estopim silencioso e invisível aceso: um ponto de saturação para a sociedade que não quer mais ser refém de jovens que, não tendo nada a perder, enfrentam o mundo. A não se desarmarem os espíritos, perdemos todos, num sacrifício desprovido de sentido, que acaba com sonhos e ideais. O que não queremos é que se forme um bando de zumbis, seguindo a procissão dos desesperados. O caminho contrário pode estar no sentido de uma prece, alimentando a fé na vida e não deixando nunca de acreditar que o outro é um ser humano, merecedor de toda a nossa atenção. E respeito.