Ares africanos


Durante os últimos quatro anos a Diocese de Pelotas, e em especial a Paróquia Santa Teresinha, na zona norte da cidade, passou por uma experiência muito interessante no que se refere ao encontro de duas culturas: viveu entre nós o padre Quintino Kandangi, angolano de nascimento e, agora, brasileiro de coração.

Em poucos dias, passaremos a sentir falta de uma figura que chegou, discretamente, ao nosso meio, ocupou o seu espaço, com luz própria, e também os nossos corações. O primeiro comentário que ouvi, a seu respeito, foi de que “aquele garoto parece um pivete!”. O pivete chama-se Quintino Kandangi.

A figura daquele representante da raça negra, magrinho, com roupas que sempre sobravam em seu corpo, e um sorriso constante, era complementada por palavras que soavam musicalmente, em especial o seu “bom-dia”, dito nos programas de rádio e esperado como algo de muito especial, pelas comunidades.

Mesmo em sala de aula – cursou jornalismo na Escola de Comunicação – expressava suas dúvidas: “mas isto tem que ser assim?” Nem que fosse apenas por um olhar.

Não, Quintino, não tem que ser assim, na maior parte das vezes. A comunicação não é uma ciência exata. Para muitos, sequer é uma ciência. É, apenas, uma busca de criar pontes entre as pessoas.

O mesmo que viestes fazer aqui. Nesta terra tão longe da tua, que te adotou como alguém que não gostaríamos de perder mais. Mas que, infelizmente, tem agora o seu momento da partida.

O que levas de nós, não sabemos. Sabemos, muito bem, o que fica de ti. Fica, na alma do nosso povo, a certeza de que, lá como cá, uma palavra amiga, um estímulo na hora certa, uma oração feita com todo o fervor, tem o seu valor.

Então, é hora. Vais ao encontro do teu sol, da tua gente. Mesmo que o padre Martinho, vindo também da, para nós, abençoada Angola (fará Serviço Social) tenha ficado impressionado como “desmerecestes” durante este tempo, sabes que estas não são as cores que nos interessam.

A pele tem suas cores por um capricho da natureza. Neste brinquedo de Deus, ganhamos nós, porque ampliamos nosso olhar sobre o mundo e, agora, sabemos que há, na distância, novos e abençoados ares africanos.