As dúvidas de madre Teresa


No início deste mês, completaram dez anos da morte de uma das mulheres que deixou uma marca inquestionável na história do século XX: madre Teresa de Calcutá. Religiosa abnegada, fundou uma congregação para trabalhar com os pobres, em especial os doentes, na sociedade indiana, onde a mulher e os marginalizados têm pouca perspectiva de vida.

Pois nesta data, que mereceria uma reflexão profunda a respeito do papel desta mulher na história da humanidade, foram divulgadas correspondências pessoais da irmã. Vou dizer o óbvio: penso que correspondências pessoais são correspondências pessoais, não são públicas, portanto deveriam ficar protegidas da sanha frívola e medíocre daqueles que adoram bisbilhotar a vida alheia para conhecer seus detalhes, preferencialmente, os mais sórdidos.

Há uma diferença muito grande com relação a figuras públicas que tratam em suas correspondências de assuntos públicos e que, então, fazem parte da História e suas vidas também devem ser públicas. Não é este o caso. Bem pelo contrário, embora a mídia tenha feito de tudo para torná-la uma espécie de “ídolo religioso”, madre Teresa preferia o silêncio e o trabalho. Suas aparições tinham como intuito conseguir ajuda para aqueles que eram os diletos do seu coração: a população mais carente.

Pois nestas cartas, madre Teresa abriu seu coração e contou que chegou a duvidar de Deus. Confesso que, ao ouvir esta declaração, minha admiração por ela tornou-se ainda maior, pois não acredito que, mesmo alguém que tenha conseguido seguir o mais proximamente o que pedem os mandamentos do Senhor, não tenha, em algum momento, fraquejado. E o fraquejar é, na maior parte das vezes, aquele momento em que, faltando a Luz, encobertos pelo frio da ausência, duvidamos de que Ele esteja ao nosso lado. Possivelmente, esta tenha sido a grande tristeza vivida por madre Tereza: sentiu-se longe do Deus que sempre a cobriu com Suas bênçãos, graças e lhe apontou uma perspectiva de vida.

Há o final de um livro, quando o protagonista sente que está morrendo e faz esta reflexão: “a sensação era de que estava sendo absorvido. Algo mais forte do que ele dizia que, agora, estava em harmonia com o Universo. Ainda pensou: Que Universo? E sentiu que este era o último dos sentimentos humanos que estava deixando: a dúvida.” Deve ter sido assim com madre Teresa, porque, com toda certeza, tendo deixado suas dúvidas para trás, ela foi recebida nos braços do próprio Deus.