O sonho da humanidade pensante

As gotas que podemos transportar


As Ciências Sociais sempre ganharam quando souberam respeitar a pluralidade de pensamento. Este é um fato, na história, que corre paralelo a um outro: a evolução do pensamento, da reflexão das ciências sociais, respeita o momento da história com seus fluxos e refluxos.

As leituras que podemos fazer, hoje, são resultado de um tipo de formação que, embora pretensiosamente pluralista, acaba fazendo o que é natural ao espírito de reflexão do homem: vemos um todo a partir de uma de suas partes e, raramente, acontece o inverso: ver uma parte a partir de um todo.

Desde este momento da história em que nos encontramos, a tendência é ver uma "evolução do pensamento". Porquê? Historicamente, há o que classificamos de avanços, mas, também, retrocessos em momentos quase caóticos da história.

Não seria mais produtivo analisarmos o pensamento de uma época dentro das condições - políticas, sociais, culturais, econômicas - daquele momento?

Nesta visão, cultura popular, pretenso eruditismo, teriam sentido naquele instante e perpassariam o seu momento da história (basta lembrar que muitas crendices que encontramos na Grécia antiga, são semelhantes às crendices do nosso homem do interior - dos grotões).

A reflexão feita da antiga Grécia ao Positivismo tem uma riqueza instigadora, provocadora, juntando elementos que nos deveriam colocar de forma mais humilde diante da construção do conhecimento.

Quem pode nos provar que, hoje, somos capazes de uma maior produção intelectual do que em qualquer outra época da história? Não estaríamos, apenas, sendo beneficiários de uma tecnologia que permite volume e não qualidade, proporcionalmente a outros tempos?

O homem, ao longo da história, garimpa a verdade, busca a certeza, anseia pela universalidade. E se sente insatisfeito. Exatamente porque encontra respostas que não acalmam sua inquietude diante do que está por ser desvelado. No momento seguinte, outro encontra a forma de "des cobrir" o mistério. Pobre mortal. Já é o suficiente para se encontrar frente a um novo problema, um novo questionamento.

Diante da história, em atitude de humilde contemplação, deveríamos assumir a postura de quem, sistematizando conhecimento (seria muita pretensão querer gestar conhecimento), conseguisse socializar estes conteúdos.

A cumplicidade, num processo de emancipação social, passa, em primeiro lugar, por desalojar os comodismos que nos dizem: "se gestares conhecimento, afasta-o da realidade, para que ela não torne o teu conhecimento impuro".

Ao contrário, ao deixarmos que o conhecimento sistematizado mergulhe na realidade que vivemos, não será maculado, mas será o pássaro que faz a sua parte ao levar, no bico, a gota d'água para apagar o fogo na floresta. Mais que isso, exemplo e reflexão (o pássaro diz: "estou fazendo a minha parte") unem mais "pássaros" e conseguem "apagar o fogo", concretizar o sonho da emancipação social, que é o intelectual refletindo a sua prática e encontrando, diante do ideal estabelecido, instrumentos para a mudança.