As opções do papa


O papa Bento XVI esteve no Brasil durante quase uma semana, até domingo, 13 de maio. Sua agenda atendeu a dois importantes eventos para a Igreja Católica: a canonização de frei Galvão e a abertura da 5ª Conferência Episcopal Latino Americana. No entanto, como se esta temática já não fosse suficientemente pesada para justificar a presença do sumo pontífice em terras brasileiras, Bento XVI tem uma outra agenda não explícita publicamente: a preocupação com os rumos da Igreja num continente em que as mazelas sociais e os desmandos econômicos e políticos têm feito com que bispos, padres e religiosos se preocupem e contestem esta realidade.

É bom lembrar que Bento XVI foi o cardeal Joseph Ratzinger, responsável pela Sagrada Congregação da Fé, que, em muitos momentos, advertiu e penalizou os que se envolveram na busca por mudanças sociais. E não se pode negar que esta presença da Igreja, em áreas de conflito, colocou em risco de vida religiosos e leigos, por sua opção preferencial pelos pobres.

A “opção mais espiritualista”, por uma atividade mais voltada para a “sacristia”, não vê um caminho muito bem definido. Em tempos de crise - especialmente de fé - é fácil verificar que muitos católicos passaram a relativizar as orientações emanadas da Igreja, praticando aquilo que acreditam ser viável e deixando de lado o que não lhes interessa.

Bento XVI quer pautar o rumo das discussões que os bispos da América Latina farão durante o encontro de Aparecida. Desde a sua primeira edição, no Rio de Janeiro - em 1955 - e, depois do Concílio Vaticano II, passando por Medellín, Puebla e San Domingos, os encontros têm sido momentos fortes para mostrar que um engajamento social é, mais do que necessário, indispensável.

Afastados os fantasmas de um esquerdismo ou de um direitismo radical, o que temos é uma realidade que exige a presença forte da Igreja - como instituição que inspira a confiança da população - pois já não é suficiente que se peça que os católicos tenham apenas uma prática pastoral dentro da Igreja. A realidade está exigindo uma atitude social e política, que já não podem ser vistas separadamente.

Tomara que Bento XVI seja surpreendido positivamente pela nossa gente e consiga ver que entre as teorias dos bancos doutrinários e a realidade, há um homem carente de fé e de Deus, precisando vislumbrar uma esperança concreta para o seu próprio futuro.