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11 - a crônica em jornal - 21 de maio

Características: A crônica é o único gênero literário produzido essencialmente para ser vinculado na imprensa, seja nas páginas de uma revista, seja nas páginas de um jornal. Quer dizer, ela é feita com uma finalidade utilitária e pré-determinada: agradar aos leitores dentro de um espaço sempre igual e com a mesma localização, criando-se assim, no transcurso dos dias ou das semanas, uma familiaridade entre o escritor e aqueles que o lêem.

Em regra geral, a crônica é um comentário leve e breve sobre algum fato do cotidiano. Algo para ser lido enquanto se toma o café da manhã, na feliz expressão de Fernando Sabino. O comentário pode ser poético ou irônico, mas o seu motivo, na maioria dos casos, é o fato miúdo: a notícia em quem ninguém prestou atenção, o acontecimento insignificante, a cena corriqueira. Nessas trivialidades, o cronista surpreende a beleza, a comicidade, os aspectos singulares. O tom, como acentua Antonio Candido é o de "uma conversa aparentemente banal".

O próprio Fernando Sabino tem uma das melhores delimitações de crônica, dizendo que ela "busca o pitoresco ou o irrisório no cotidiano de cada um". Em outro momento, o autor de O homem nu voltou a teorizar sobre o gênero: Eu pretendia apenas recolher da vida diária algo de seu disperso conteúdo humano. Visava ao circunstancial, ao episódico. Nesta perseguição do acidental, quer num flagrante de esquina, quer nas palavras de uma criança ou num incidente doméstico, torno-me simples espectador.

 

A proximidade com o conto - Nem só de comentários a respeito do dia-a-dia vive a crônica. Com relativa freqüência, ela se aproxima do conto. O gosto pela história curta, pelo diálogo ágil, pela narrativa de final imprevisto e surpreendente e a unidade de ação, tempo e espaço levam vários cronistas à prática mais ou menos disfarçada do conto.

Fernando Sabino e Luís Fernando Veríssimo são expoentes dessa modalidade. Vários dos trabalhos que publicam na imprensa apresentam personagens e situações ficcionais próprias do gênero narrativo. Por exemplo, O homem nu, do primeiro, e a série Comédias da vida privada, do segundo, são mais relatos do que comentários.

Diante de tal embrulho teórico, poderíamos considerar que o conto – ao contrário da crônica-conto – não tem as limitações de linguagem, extensão e profundidade, exigidas pelos jornais. Apresenta, pois, um grau maior de complexidade. Além disso, o conto, em estado puro, visa normalmente ao dramático, enquanto a crônica-conto busca, de forma quase que exclusiva, o humor e a sátira.

No entanto, esta diferenciação só é perceptível aos alunos com a leitura contínua de contos e de crônicas, tornando-se desnecessário o estabelecimento de uma rígida fronteira conceitual entre ambos.

 

Tipos de crônica - A rigor, podemos falar na existência de três tipos de crônica, que muitas vezes se confundem:

 

Crônica lírica ou poética - Caracteriza-se pelo flagrante de aspectos sentimentais, nostálgicos ou de simples beleza da vida urbana, especialmente do Rio de Janeiro. Seu maior expoente é Rubem Braga, seguido por legítimos poetas-prosadores como Carlos Drummond de Andrade, Antônio Maria, Paulo Mendes Campos e outros. Este tipo de comentário poético parece em desuso, provavelmente devido à violência e a degradação na vida das grandes cidades brasileiras. Veja-se este fragmento da crônica Procura-se, de Rubem Braga:

Procura-se aflitivamente pelas igrejas e botequins, e no recesso dos lares e nas gavetas dos escritórios, procura-se insistente e melancolicamente, procura-se comovida e desesperadamente, e de todos os modos e com muitos outros advérbios de modo, procura-se junto a amigos judeus e árabes, e senhoras suspeitas e insuspeitas, sem distinção de credo nem de plástica, procura-se junto às estátuas e na areia da praia e na noite de chuva e na manhã encharcada de luz, procura-se com as mãos, os olhos e o coração um pobre caderninho azul que tem escrito na capa a palavra endereços e dentro está todo sujo, rabiscado e velho.

Pondera-se que tal caderninho não tem valor para nenhuma outra pessoa, a não ser seu desgraçado autor. Tem este autor publicado vários livros e enchido ou bem ou mal centenas de quilômetros de colunas de jornal e revista, porém sua única obra sincera e sentida é esse caderninho azul, escrito através de longos anos de aflições e esperanças, de negócios urgentes e amores contrariadíssimos, embora seja forçoso confessar que há números de telefone que foram escritos em momentos em que um pé do cidadão pisava uma nuvem e outro uma estrela e os outros dois... – sim, meus concidadãos, trata-se de um quadrúpede. Eu sou um velho quadrúpede. E de quatro joelhos no chão peço que me ajudeis a encontrar esse objeto perdido.

 

Crônica de humor - Procura basicamente o riso, com certo registro irônico dos costumes. Apresenta-se, como já vimos tanto sob a forma de um comentário quanto de um relato curto, próximo do conto. Do primeiro caso tem-se como exemplo um trecho de O flagelo do vestibular, de Luis Fernando Veríssimo:

( ...) Nunca tive que passar pelo martírio de um vestibular. É uma experiência que jamais vou ter, como a dor do parto. Mas isso não impede que todos os anos, por essa época, eu sofra com o padecimento de amigos que se submetem à terrível prova, ou até de estranhos que vejo pelos jornais chegando um minuto atrasados, tendo insolações e tonturas, roendo metade do lápis durante o exame e no fim olhando para o infinito com aquele ar de sobrevivente da Marcha da Morte de Batan. Enfim, os flagelados do unificado. Só lhes posso oferecer a minha simpatia. Como ofereci a uma conhecida nossa que este ano esteve no inferno.

– Calma, calma. Você pode parar de roer as unhas. O pior já passou.

- Não consigo. Vou levar duas semanas para me acalmar.

– Bom, então roa as suas próprias unhas. Essas são as minhas.

– Ah, desculpe. Foi terrível. A incerteza, as noites sem sono. Eu estava de um jeito que até calmante me excitava, e quando conseguia dormir sonhava com escolhas múltiplas: A) fracasso, B) vexame, C) desilusão. E acordava gritando: Nenhuma destas, nenhuma destas. Foi horrível.

– Só não compreendo porque você inventou de fazer vestibular a esta altura da vida...
– Mas quem é que fez vestibular? Foi meu filho! E o cretino está na praia, enquanto eu fico aqui, à beira do colapso.

 

Crônica-ensaio - Apesar de ser escrita em linguagem literária, ter uma veia humorística e valer-se inclusive da ficção, este tipo de crônica apresenta uma visão abertamente crítica da realidade cultural e ideológica de sua época, servindo para mostrar o que autor quer ou não quer de seu país. Aproxima-se do ensaio, do qual guarda o aspecto argumentativo Nelson Rodrigues é o grande nome dessa linha, mas devemos citar também Paulo Francis, Arnaldo Jabor, Carlos Heitor Cony e, em alguns textos, Luís Fernando Veríssimo. Observe este fragmento da crônica de Arnaldo Jabor:

O carnaval virou uma paisagem de nádegas: Hoje é carnaval e como ando numa onda nostálgica sou arremessado para 1950, no colo de meu pai, na Avenida Rio Branco, vendo passar as sociedades carnavalescas. Eram grandes carros alegóricos, cheios de rodas moventes, de estátuas de papel e massa, toscas e épicas com grandes rostos, estrelas, engrenagens brilhantes, sóis, luas, cobertos de mulheres provocantes. Meu pai me levava pela mão e eu olhava um imenso carro (seria grande mesmo ou era a escala de minha infância?) que era um despotismo de cachos de bananas, com uma lindíssima mulher morena e nua no alto.

Os pais de família, as mães de família (todo mundo era de família...) diziam: "Olha a Elvira Pagã! Olha a Elvira Pagã!". Elvira Pagã era apenas uma vedete, mas, naquele ano remoto, ela queria provar alguma coisa. Algumas mulheres como ela (Luz del Fuego e outras) transcendiam o palco e viravam o símbolo vivo de alguma loucura no ar, de algum desejo reprimido no coração das famílias. Eu olhava em volta e via nas senhoras distintas a inveja infinita e escandalizada e via no meu pai um olhar que eu não conhecia, voltado para a Elvira Pagã (que nome anticristão e nu!). Havia naquela nudez uma coragem que não vejo nos tempos libertinos de agora.

Resumo do texto de Sergius Gonzaga

http://educaterra.terra.com.br/literatura/temadomes/ acesso em 27/03/06

 

Trabalho para o dia 29 de maio: escrever uma crônica.