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12 - colunismo em jornal - 28 de maio

O jornalista Ibrahim Sued foi durante, muitos anos, sinônimo de colunista social no Rio de Janeiro. Escrevendo uma coluna diária – Zum-Zum – que começou a circular em 1951, no jornal Vanguarda, o jornalista criou um estilo próprio de noticiar o mundo e a elite carioca através de suas notas. Ibrahim ganhou fama e notoriedade dentro e fora da profissão escrevendo suas colunas com personalidade, inventando termos, lançando personagens, criando modismos, elogiando e criticando à vontade.

Diferentemente do texto literário o texto jornalístico não está amarrado à idéia de originalidade, mas tem a obrigação de trazer uma novidade, já que a essência da imprensa é a notícia. A novidade é o produto mais importante do jornal e a forma de apresentá-la, redigi-la e elaborá-la é que diferencia os veículos, na medida em que os fatos ocorridos em uma cidade ou país são os mesmos.

Essa dependência da realidade, do verossímil é uma das características do jornalismo que tem compromisso com a atualidade. Juntamente com o elemento fundamental do jornal – a notícia - há outro aspecto importante: o estilo do texto. A escrita jornalística possui uma linguagem própria, muito específica, com particularidades que a diferenciam da literária, por exemplo.

Para Amoroso Lima, o jornalismo é uma espécie de literatura em prosa, apreciação de acontecimentos, e possuem componentes específicos como informação, atualidade, linguagem objetiva e estilo. Dentro deste quadro seria possível dizer que as colunas escritas por Ibrahim Sued se enquadram na perspectiva de Amoroso Lima, quase como um “tipo” particular e específico de jornalismo.

Antonio Olinto (1968:19) comunga com a visão de Amoroso Lima. A seu ver, jornalismo é literatura para consumo imediato e possui certa funcionalidade. Ele ressalta:

É claro que o jornalismo comporta também literatura de maior alcance, em suplementos literários, onde contos, ensaios e poemas são periodicamente publicados, ou certas crônicas diárias, mas esta é uma parte lateral ao jornalismo propriamente dito.

 

Para Olinto, apesar da linguagem da imprensa sofrer as contenções fundamentais à prática do jornalismo, ela é um “ato de criação” e nesse ponto se aproxima da literatura.

Já o jornalista Nilson Lage (1985:28) discorda inteiramente dessa perspectiva, argumentando que o texto jornalístico tem especificidades que o impedem de ser considerado literário.

O jornalismo não é um gênero literário a mais. Enquanto, na literatura, a forma é compreendida como portadora, em si, de informação estética, em jornalismo a ênfase desloca-se para os conteúdos, para o que é informado. O jornalismo se propõe processar informação em escala industrial e para consumo imediato. As variáveis formais devem ser reduzidas, portanto, mais radicalmente do que na literatura.

 

A coluna social de Ibrahim Sued pode ser analisada como um gênero de texto jornalístico. Estas colunas podem ser denominadas crônicas, nos dois sentidos que lhe são conferidos por Aurélio Buarque de Holanda (1999: 584)

Texto jornalístico redigido de forma livre e pessoal, e que tem como temas fatos ou idéias da atualidade, de teor artístico, político, esportivo, etc, ou simplesmente relativos à vida cotidiana. E seção ou coluna de revista ou de jornal consagrada a um assunto especializado.

 

Não acredito que a produção jornalística de Ibrahim Sued, possa, entretanto, ser vista como crônica no seu aspecto literária, como “pequeno conto de enredo indeterminado”, como também define o dicionário Aurélio. José Marques de Melo (1994:159) afirma:

Que a crônica é um gênero jornalístico constitui uma questão pacífica. Produto do jornal, porque dele depende para a sua expressão pública, vinculada à atualidade, porque se nutre dos fatos do cotidiano, a crônica preenche as três condições essenciais de qualquer manifestação jornalística: atualidade, oportunidade e difusão coletiva.

 

Marques de Melo (1994:140) destaca o papel do público leitor de colunas sociais:

O colunismo atende a uma necessidade de satisfação substutiva existente no público leitor. Já que a maioria das pessoas está excluída do reduzido círculo dos colunáveis (poder/estrelato), dá-se-lhe a sensação de participar desse mundo, através dos colunistas. Trata-se de uma forma de participação artificial, abstrata. Participam sem fazer parte. Acompanham à distância. São personagens públicas – e se sabem ou se desejam objetos de atenção da multidão. É para ela que a ‘sociedade’ se representa, ou melhor, se apresenta. E, mais do que uma representação, vê-se aí uma apresentação do social, o qual se encontra, enquanto construção simbólica, sempre suposto no discurso, mas se constrói somente pela alusão.

 

Ibrahim Sued deu um novo fôlego às colunas, misturou informação com opinião, inventou um estilo. Por outro, o que se pode notar nesta “demanda” de colunas e procura dos jornais de novos colunistas é o quanto a sociedade contemporânea está cada vez mais ávida de informações curtas e rápidas.

Ibrahim Sued é um jornalista atento às necessidades de seu leitor, consciente e “orgulhoso” de seu papel de repórter. O colunista sempre declarou que sua linhagem começava com ele mesmo e que tudo o que conseguiu na vida foi graças à profissão. Ao pesquisar os jornalistas (1993), pude perceber o quanto a profissão ocupa um lugar central em suas vidas, definidor de uma identidade, bem mais do que uma atividade ou emprego na vida de seus profissionais. Ela exige uma adesão de quem a escolhe que resultará em um estilo de vida e uma visão de mundo particular.

Pierre Bourdieu (1997) afirma que os jornalistas têm óculos especiais a partir dos quais vêem as coisas”. Seguindo nesta direção, poderia afirmar que Ibrahim usa não apenas os “óculos” de jornalista, mas de um jornalista específico - o colunista social -, e a sua perspectiva da sociedade brasileira, dos fatos, do mundo está impregnada desta identidade. Ibrahim escreve a sua coluna de um lugar muito particular - da elite -, analisa as notícias sob este prisma. Sua coluna pode ser lida como um processo de entrada neste outro “mundo” social, na medida em que sua origem é humilde. Ele conquista um espaço social e jornalístico. E é compreensível o sucesso de sua coluna.

Se o leitor quer textos enxutos e tem cada vez menos tempo para se dedicar à leitura do jornal, por outro lado, os espaços reservados à subjetividade dentro da imprensa diária estão cada vez mais restritos. A imprensa busca a objetividade acima de tudo, a isenção diante dos fatos. E uma coluna social ainda é um território preservado onde as subjetividades, opiniões e personalidades podem se manifestar livremente. Para o prazer do leitor e com o consentimento do jornal.

 

GT – Gênero e Cultura de Massa - A coluna de Ibrahim Sued – um gênero jornalístico

Isabel Travancas – UERJ

Trabalho: para o dia 05 de junho – fazer uma coluna, com cerca de quatro ou cinco tópicos.