Aula 2 - letras com cara de produto e produtos com cara de letra - 05 de março

No dia em que o homem estabeleceu sinais para traduzir os sons que emitia tudo mudou na humanidade; a criação da linguagem é o divisor de águas entre o ontem e o amanhã. Respeitadas as características de cada cultura, mesmo com as novas mídias disponíveis no mundo moderno, a grande sacada do texto é transmitir sem deixar nenhuma dúvida o teor de suas mensagens e, nisso, têm um enorme papel os desenhos das letras e sua disposição.

O som deixa dúvidas, por ser momentâneo e disperso por nossa capacidade limitada de absorção sonora. As imagens podem propiciar interpretações dúbias, conforme as tendências ou mesmo os parâmetros a que somos submetidos diante de seu conteúdo. O texto, por outro lado, é inquestionável em sua abrangência e profundidade, quando seu código é adequadamente utilizado e, mais ainda, quando se domina a retórica. Mas a maneira de utilizar as letras leva essa comunicação um passo adiante, construindo, reforçando ou alterando significados.

O que é composição em artes gráficas – a reunião de imagens, letras e ornamentos de modo a compor o universo do grafismo de um impresso. Como está geralmente ligada à palavra e à comunicação, a composição tem como elemento fundamental as letras e suas formas, que evoluíram através dos tempos para se tornar uma das maiores conquistas da humanidade.

A arte influencia o desenho da letra. Uma definição simples de arte é a união da virtude e da técnica para realizar determinado trabalho, sob aplicação de alguma regra. Assim se comportam as artes da música, da escultura e outras mais. Uma convenção arraigada em arte é dividi-la em dois grupos distintos de acordo com sua finalidade: as belas artes, que buscam a beleza como seu elemento principal (arquitetura, escultura, pintura, música e poesia) e as artes aplicadas, que têm como principal objetivo resolver as necessidades da vida (vestuário, mecânicas).

A evolução das letras tem forte relação com a arquitetura. Vejamos:

Estilo clássico: predominou durante a Antiguidade Greco-romana.

Estilo bizantino: inspirado na antiga Constantinopla, hoje Istambul, antes conhecida como Bizâncio. Originou o termo bizantino e tem como maior referência arquitetônica a Catedral de Santa Sofia, do século VI.

Estilo românico: predominou na Europa durante os séculos XI, XII e parte do XIII.

Estilo gótico: predominou na Europa durante os séculos XIII, XIV e XV.

Estilo renascentista: inicia no século XV e retorna ao emprego de elementos clássicos, seguindo a tendência humanista. Desse movimento nasceu o estilo barroco, com grande abundância de adornos e detalhes, o rebuscamento.

Acompanhando a e evolução da técnica e da economia, a estética arquitetônica continuou a evoluir, originando estilos modernos como o floreal, o cubista e o funcional. O surgimento da tipografia ofereceu maior variedade de elementos seja para a impressão funcional, seja para a impressão artística.

Estética gráfica. O principal objetivo do produto impresso é a informação limpa e objetiva. Mas isso nem sempre é verdade. A maneira como dispomos o texto e a própria forma das letras tem uma enorme influência sobre o resultado final. Recursos como textos, vinhetas, filetes, imagens compõem o universo em expansão de uma manifestação artística específica.

O primeiro estilo utilizado foi o gótico – 1450 a 1500 – em suas diversas versões, pois a tipografia precisava fixar-se como meio de reprodução, e o modelo utilizado pelos desenhistas era o gótico, tipologia predominante nas iluminuras da época. Sua legibilidade sempre foi contestada, hoje ficou confinada a impressos que remontam ao clássico, como diplomas, mensagens e logos que queiram inspirar tradição e confiança.

As letras romanas humanísticas, fundidas em tipos móveis, foram fortemente influenciadas pelos góticos. Letras claras, de fácil leitura, utilizando serifas para agradar ao olho.

Como alternativa, os caracteres egípcios, caracterizados pela simplicidade de seu desenho e forte grau de visibilidade. Seu desenho tem pouca ou nenhuma variação em suas hastes e é desprovida de serifas.

A partir do século XVIII, houve uma liberação para estilos mais modernos, com influência dos movimentos liberty e floreal, caracterizados pela simplicidade das formas, deixando mais livre a arte de desenhar caracteres. Os movimentos cubistas e construtivistas influenciaram a tipografia com muita força, devido à geometrização das formas, a valorização dos espaços em branco, as disposições geométricas e as proporções em suas formas são utilizadas até hoje pelos artistas gráficos.

A tipografia funcional é aquela que atende às necessidades do projeto gráfico a que nos propomos. Quer utilizemos caracteres da tipografia clássica ou da elementar, as letras devem atender às necessidades do impresso: nos matérias editoriais, a legibilidade é o elemento mais importante, ao passo que para impressos publicitários e de embalagens, a visibilidade é a condição básica.

A tipografia moderna. A tipografia moderna é o resultado do casamento do avanço tecnológico com as mudanças sociais. O aumento no padrão de vida e o acesso à cultura por uma parcela maior da população pedem mais livros, melhores anúncios publicitários e embalagens mais elaboradas. Podemos dizer que a atividade publicitária avançou mais nos últimos 50 anos, do que nos 450 da era Gutemberg.

As famílias fundamentais das letras.

Romana antiga. Característica: alto grau de legibilidade. O contraste de suas hastes, associadas às serifas em formato triangular, proporciona a esses caracteres um rápido acesso do código ao cérebro, pois os agrupamentos de símbolos facilmente legíveis provocam rápida absorção e resposta.

Egípcia.  Hastes de espessura uniforme ou quase uniforme e serifas retangulares. Por terem desenho muito robusto, sua utilização está ligada a textos curtos e de informação rápida, pois são muito pesados para textos longos. Requer cuidado na sua utilização.

Lapidária ou bastão. Simplicidade de desenho – hastes de espessura quase uniforme e sem serifa – prestando-se para peças publicitárias e embalagens, por seu alto grau de visibilidade. Durante muito tempo, seu uso foi considerado vulgar.

Cursiva: Origem italiana, plasticamente mais bonitas, com adornos, sombras, liberdade de traços, porém, quando o quesito é legibilidade e visibilidade, são letras que mais comprometem a comunicação: são difíceis de ler e de serem interpretadas pelo cérebro.

Imitam a escrita manual.

Classificação por série

Envolvendo inclinações diferentes, larguras diferentes, tonalidades diferentes e usos ortográficos diferentes nos desenhos das letras.

A inclinação é conhecida como itálico. Embora o mais comum seja inclinado à direita, também se encontra a inclinação à esquerda.

A largura, onde se encontram as médias (normais); expandidas (ampliadas) e condensadas (diminuídas).

 

Em Produção Gráfica – arte e técnica da mídia impressa. Antonio Celso Collaro

Person Prentice Hall, São Paulo, 2007.