Aula 3 - O elemento cor na produção visual e gráfica - 12 de março

A cor fascina estudiosos desde os primórdios da humanidade, e os fundamentos que regem a sensação das cores ainda hoje são motivo de estudo para os mais diversos fins. Definir cor não é tarefa muito fácil, pois ela está diretamente relacionada à percepção individual. Assim, os pesquisadores procuram defini-la de acordo com suas convicções literárias, esotéricas ou acadêmicas, e isso só faz tornar o tema mais apaixonante.

Partindo dos critérios que fundamentam a comunicação, podemos dizer que a cor é uma informação recebida pelos seres vivos por meio de seus aparelhos visuais e, quanto maior a complexidade desses aparelhos, maior será a capacidade de esses seres abstraírem as cores. A maneira como as pessoas reagem às cores é conhecimento essencial para o produtor gráfico. A exposição a determinadas cores básicas provoca reações diferentes no consciente e no inconsciente de diferentes tipos de pessoas. Conhecer essas reações vai ajudar-nos no uso desses instrumentos visuais, de modo a tirarmos proveito, tecnicamente, das tonalidades que nos rodeiam.

As preferências e suas razões

Em relação ao sexo – Quando perguntamos às pessoas o que é uma cor masculina e uma cor feminina, a maioria cita azul e rosa, respectivamente. De fato, as preferências quanto às cores se alteram dependendo do sexo das pessoas, mas não exatamente dessa maneira. Na verdade, os matizes azuis são cores femininas, enquanto o rosa é uma cor que agrada aos homens. Estranho? Claro que não: consciente ou inconscientemente, temos o hábito de usar cores para agradar o sexo oposto, daí a troca. Os artistas gráficos não devem tirar conclusões apressadas quanto ao efeito das cores sobre as pessoas, porque essas percepções muitas vezes ficam confusas.

Em relação à idade – as experiências vividas pelas pessoas influenciam fortemente suas reações a cores, e a cada faixa etária essa experiência acumulada cria algumas tendências. Pessoas de idade mais avançada, por exemplo, tendem a preferir tons frios, de base azul. Uma possível explicação para isso é a associação com experiências passadas e imagens que transmitem sensações de distância, imensidão, como o mar e o céu, muito comuns no sentimento de saudade do idoso.

Da mesma maneira, os jovens tendem às cores mais quentes, pois estas vibram mais e, consequentemente, provocam reações mais rápidas no cérebro. Além desse fator fisiológico, há o fato de que os tons quentes se destacam mais, o que é natural para os jovens, já que sentem necessidade de se destacar e ocultar suas próprias inseguranças.

Já as crianças são influenciadas por cores vivas, e os contrastes são interessantes nessa fase. O fato de enxergarem o vermelho primeiro torna as cores com essa base muito entusiasmantes para crianças – e esse reflexo nos acompanha por toda a vida.

Em relação à cultura – O fator cultura é decisivo no efeito de uma cor. Tradições milenares e religiões influenciam até hoje o gosto por determinadas cores. O branco, que no Ocidente lembra pureza, no Japão é associado à morte, ao passo que o vermelho costuma ser associado tanto ao inferno como ao fervor religioso. Cabe ao designer conhecer o significado das cores em uma determinada comunidade de modo a escolher aquelas que causarão o efeito esperado.

Em relação ao clima – O clima de uma região pode influenciar a maneira como seus habitantes se comportam diante das cores. Locais de clima frio, nublados na maioria do tempo, levam seus habitantes a preferir cores escuras, por reterem mais o calor. O inverso é verdadeiro em regiões de clima tropical, onde o branco é uma cor agradável e bem-vinda, por refletir o calor e proporcionar certo frescor quando usado.

Funções da cor – Por propiciar contrastes, as cores têm o potencial de transmitir muito mais que simples sensações, elas são capazes de codificar informações. Muitos códigos de cor são encontrados na natureza, como os insetos venenosos que em geral são muito coloridos. Algo mais comum e próximo é a maneira como as mães avaliam a temperatura de seus filhos pelo rosado de suas bochechas ou como percebemos que uma pessoa não está bem de saúde por estar muito branca.

Da mesma maneira, organizamos grande parte da vida em sociedade em torno de códigos de cores mais ou menos universais. Um exemplo disso sãos os fios condutores: suas cores indicam o pólo que conduz a energia, evitando inversões que poderiam ser catastróficas. O uso das cores permite estabelecer regras para códigos de confiança universais, como as cores dos semáforos.

O poder de atração da cor – Estudos sobre o poder de atração da cor também têm sido feitos ao longo dos anos e com base neles podemos afirmar que o laranja tem o maior poder de atração, seguido do vermelho, azul, preto, verde, amarelo, violeta e o cinza.

A forma e o seu poder de concentração – A forma do objeto que apresenta uma cor também influencia no grau de memorização da informação, pois aumenta ou reduz a expansão da cor. As formas circulares e elípticas são mais eficientes e são mais usadas, por possuírem forte poder de concentração da expansão da cor; quanto maior sua simetria (como no caso do círculo) maior sua eficiência. As formas retangulares são a opção seguinte para concentração das informações, seguidas pelas triangulares, que têm a menor eficiência nesse quesito.

A cor e os sentidos – As cores também estimulam associações com o paladar e os sabores: a acidez normalmente é denotada por tons amarelos, verdes ou verde-amarelados; o amarelo, o laranja e o vermelho dão a ideia de algo doce; o adocicado fica por conta do rosa, ao passo que o amargo está relacionado ao marrom, ao azul-marinho e ao verde-oliva.

O peso – Os tons branco e amarelo sugerem maior leveza aos produtos, e os tons verde, azul-acinzentado, vermelho e preto sugerem maior peso e robustez.

A visibilidade – O aparelho visual humano é composto de elementos chamados “cones”, que são sensíveis às cores primárias vermelho, verde e azul-violeta. Eles formam o campo visível, ou melhor, o conjunto de pontos do espaço que o olho humano imóvel consegue ver de uma vez só. Esse campo apresenta variações relevantes no que se refere a valores cromáticos.

Se partirmos do centro do campo visível pra suas extremidades, inicialmente diminui a sensibilidade para identificar tons de verde; em seguida, são os tons de vermelho que ficam mais difíceis de ver, e somente nas extremidades é que perdem visibilidade o azul e o amarelo. Isso faz do azul e do amarelo as cores mais visíveis a distância.

Ao se planejar uma combinação de cores, é preciso levar em conta essa visibilidade e também o contraste entre as cores. Por exemplo, o contraste de amarelo e preto é o mais visto a distância, porque o azul é o tom mais próximo do preto. O branco, em contraste com o preto, não consegue a mesma visibilidade. A combinação de tons como o verde e o azul, obtém uma visibilidade ruim. Por outro lado, o uso conjunto de cores contrastantes, como vermelho e verde, pode ser incômodo para os olhos, principalmente se estão na mesma proporção.

Percepção dos tons – Experimentos mostram que as cores associadas às formas dos grafismos transmitem movimentos. Está também comprovado que cores claras e quentes ampliam a superfície dos suportes, enquanto as frias possuem a propriedade de transmitir certa diminuição, dando um peso visual inconsciente quando aplicadas.

Em Produção Gráfica – arte e técnica da mídia impressa. Antonio Celso Collaro

Person Prentice Hall, São Paulo, 2007.