Aula
5 - A abertura do texto - 26 de março.

A abertura de uma reportagem deve adaptar-se ao gênero:

* Na entrevista, uma citação;

* Na reportagem de fatos, a principal seqüência narrativa (em forma de notícia).

Costuma-se usar palavras concretas, frases curtas, incisivas e afirmativas, estilo direto. Quando possível, indica-se de saída o ângulo mais importante.

Pode-se:

1.       Realçar a visão - quando se usam aberturas descritivas.

Aconteceu lá pelos idos de 1950, numa pequena cidade do interior de Minas Gerais. O prefeito avisou que iria ligar, pela primeira vez, o único aparelho de televisão da cidade. Montou uma espécie de oratório no coreto da pracinha e a população correu ao local. Na hora marcada, o político acionou o botão e a tela ficou cheia de chuviscos. Não conseguiu sintonizar a programação. Mas o povo achou lindos os arabescos eletrônicos. Era o princípio de uma idolatria à televisão que chegaria ao ponto de, hoje em dia, muita gente não ter geladeira, mas não dispensar um aparelho de tevê. Não sem certa razão. Afinal, este eletroeletrônico onipresente é a grande diversão gratuita. Ao longo de 50 anos de atividade no Brasil, a serem completados no próximo dia 18, o veículo proporcionou muitas alegrias, tristezas e informação. (Isto É)

2.      Realçar a audição - citação-declaração.

”A convenção de junho é que vai definir, mas o candidato que ficou definido na consulta, e tendo em vista os critérios da prévia, é Garotinho.” A declaração foi dada pelo presidente do PMDB, Michel Temer, depois de uma série de confusões que marcou a consulta informal do partido para decidir seu candidato à Presidência da República. Germano Rigotto fez mais votos, mas a fórmula que atribui pesos diferenciados aos Estados deu a vitória a Anthony Garotinho. (Zero Hora)

3. Realçar a imaginação - abertura comparativa.

O povo amava Mane Garrincha. Em dezembro de 1973, foi vê-lo movimentar-se pela última vez dentro das quatro linhas do Maracanã, no “jogo da gratidão”. Como se chamou piedosamente o afinal inútil ato de caridade em benefício do já aniquilado herói das Copas de 58 e 62. Na última quinta-feira, 20, o povo voltou ao Maracanã, agora para contemplar o corpo inerte do ídolo de outrora, cujos feitos a maioria só conhece de filmes ou de ouvir contar. (Veja)

3.      Realçar a pessoa - realçar a história pessoal, colocando-se em cena o leitor.

Homem de maneiras naturalmente fidalgas, de trato fácil e tom de voz tranqüilo, o presidente do Internacional, Jarbas Lima, parecia outro quando abriu a entrevista coletiva concedida ontem para explicar a razão de seu misterioso desaparecimento, na terça-feira.

Emocional, falando com a voz entrecortada e gesticulando muito, o dirigente afirmou que não vai renunciar ao cargo para o qual tem mandato até dezembro do ano que vem.

Jarbas Lima explicou que precisava realizar exames devido a problemas de pressão arterial e por isso pediu para que o vice-presidente de futebol, Fernando Miranda, respondesse em seu lugar por uma semana. Em princípio, sua licença médica vale até amanhã. O presidente negou que seu afastamento tivesse por motivo discordâncias com os rumos da política de Fernando Miranda. (Zero Hora)

5. Jogar com fórmulas - frases feitas ou clichês, retendo-os tal e qual ou alterando-os.

O templo religioso vai buscar dinheiro no templo do capitalismo. No próximo dia 13 de setembro, a Igreja Católica vai lançar cotas na Bolsa de Valores do Rio de Janeiro. Os futuros quotistas não vão receber participação nos lucros, nem vão aguardar os dividendos em reais. A grande inovação dessa emissão no mercado de capitais é que o investidor receberá dividendos sociais, com a transparência de uma empresa aberta. (Folha)

6. Jogar com as palavras - trocadilhos, paradoxos.

A notoriedade da cidade gaúcha de Jóia, conquistada a contragosto por causa da descoberta ali de focos de febre aftosa, não incomoda tanto assim os moradores. Alguns até acham graça quando vêem o lugar onde vivem aparecer na tevê. Eles são, na sua grande maioria, proprietários de pequenos sítios e vivem basicamente da venda de leite para os laticínios e cooperativas da região. Também cultivam um pouco de soja e de milho, alternadamente, para garantir uma renda extra. A soja andou ruim com a seca do primeiro semestre, e o milho só será colhido em alguns meses. Daí que contavam com o leite para sobreviver. (Isto É)

7. Recapitular (utiliza-se de elementos vindos da História)

Há cerca de dois mil anos atrás os romanos fundaram Conímbriga. A cidade cresceu em importância. Era uma cidade de comerciantes, artífices e agricultores. Hoje, o empresário de Coimbra, José Silva, quer recriar Conímbriga, promovendo a construção de um parque educativo.”

 

O professor português Jorge Pedro Sousa trabalha com reportagem em seu site na Internet. No texto “Elementos de jornalismo impresso”, demonstra uma preocupação especial com o fechamento de uma reportagem que, salienta, pode ser forte ou fraco, dependendo da estrutura escolhida: “Pode propor alguma coisa, pode resumir o que foi dito, pode surpreender, pode dar informação, etc.” Reproduzimos seus exemplos:

Proposta: “Todo o cidadão português pode agora apresentar-se como candidato independente a uma autarquia local. É tempo de mostrar aos partidos que não podem deter o monopólio da vida política e de pressionar os deputados para que sejam admitidas candidaturas de independentes para a Assembléia da República.”

Resumo: “As matas são verdes. Os campos são verdes. É um verde forte, absoluto, total. O Minho é verdadeiramente verde.”

Efeito surpresa: “Os talibãs chegaram ao poder em 1997. Aprisionaram, violaram, torturaram. Impediram as mulheres de saírem de casa e acesso à educação e à saúde. Em quatro anos, as trevas do fundamentalismo islâmico cobriram o Afeganistão. Terá o Afeganistão futuro? Só o próprio futuro pode responder.”

Os fechos originais também não escapam muito a esses modelos. Quase sempre, no entanto, a simplicidade é a tônica - o que faz coincidir o final do texto com o término da narrativa.

 

Personagem da notícia

Uma das formas de despertar o interesse do leitor é provocar identificação, ou empatia, com o personagem da notícia. Procure sempre levantar e registrar o máximo de informações (biografias, físicas, de comportamento) sobre o entrevistado ou sobre os envolvidos no fato. Elas serão úteis no momento de descrever a pessoa.

Escreva seu texto de modo a compor para quem lê uma imagem viva, concreta, do personagem da notícia. Se ele for de fato interessante, pode atrair o foco da reportagem, transformando-a em um perfil.

Tome cuidado com seus próprios preconceitos e inclinações, questionando se de fato o personagem seria interessante para qualquer leitor. Há funcionários de empresa que exercem outras funções ou serviços, fora de seu horário de trabalho - produção artística, serviços comunitários - que podem ser de interesse para matérias de apelo ou de empatia.

 

 

Para pensar: “As palavras elegantes não são sinceras; as palavras sinceras não são elegantes.”

 (Lao-Tsé, filósofo chinês)

 

 

Trabalho para o dia 03 de abril: Reunir elementos e fazer uma matéria com uma das aberturas estudadas.