Aula
6 - Entrevista, cobertura e narrativa - 02 de abril.

A entrevista - Em sentido lato, a entrevista é a forma de apuração de informações mais comum em jornalismo. Como gênero de texto, ela se apresenta como o relato de alguém, orientado, ordenado e selecionado por outro, o entrevistador.

As pessoas em geral – entre elas os entrevistados – supõem que a publicação na forma de perguntas e respostas é mais fiel do que as outras formas de apresentação da entrevista. Enganam-se: a transposição da linguagem falada para o texto é geralmente trabalho penoso, que envolve reelaboração sintática, o recurso a generalizações e uma preocupação em ser fiel aos sentidos e conteúdos não explícitos. A forma noticiosa – em que as proposições da entrevista são reordenadas com valor decrescente – ou a redação em que se mesclam enunciados e dados históricos ou circunstanciais de outra ordem pode eventualmente ser preferível.

Embora haja vários tipos de entrevista – desde a mera declaração ritual até a opinião técnica abalizada, o depoimento sobre algo testemunhado ou sobre toda uma experiência de vida – a forma de apresentação varia pouco. No jornalismo impresso, textos geralmente longos, com frases destacadas; na televisão, o confronto entre repórter e entrevistado, em geral sentados ambos, com planos e contraplanos disfarçando os cortes da edição.

 

Cobertura jornalística - As relações reportagem-repórter e repórter-testemunho nem sempre se sustentam na prática. Matérias de cobertura de eventos amplos, como uma crise econômica, uma guerra ou uma greve geral não podem resultar do trabalho de um homem ou mesmo de uma equipe. Os obstáculos são não apenas a pluralidade de eventos como seu caráter inesperado e as restrições criadas pelas fontes, que preservam o segredo de suas estratégias.

Alguém terá que consolidar, num único texto, informações de várias fontes, mais ou menos confiáveis (em situações de conflito, as fontes oficiais figuram entre as mais duvidosas): selecionar entre contradições, preferir tal ou qual prognóstico, circunstanciar de uma forma ou de outra, medir reações etc. Pode ser um repórter em campo, mas geralmente será alguém na redação.

A macroestrutura desse tipo de reportagem foi estudada em profundidade por Teun Van Dijk. Algumas das incertezas quanto a esse trabalho pioneiro poderiam ser verificadas caso se repetisse, em situações diversas, a metodologia empregada. Alguns aspectos da cobertura parecem corresponder a particularidades do evento estudado (o assassinato do presidente eleito do Líbano, Bechir Gemayel, em setembro de 1982 e a subseqüente invasão do Oeste de Beirute pelo exército israelense) e a certo jogo político nas estruturas de transporte da informação: por exemplo, a aceitação da tese de que o primeiro desses eventos causou o segundo. Ela, de certa maneira, justifica a atuação israelense, com toda improbabilidade de uma ação militar dessa envergadura ter sido planejada e executada em tal rapidez. Está em jogo o conceito de causa (necessária, suficiente, imediata etc.), um dos mais sensíveis na Teoria do Conhecimento.

Van Dijk propõe que o discurso da cobertura (que ele chama de notícia, sem distingui-la do relato de evento singular) seja composto de um sumário (a manchete e o lead) e um relato jornalístico, compreendendo o episódio e comentários. Do episódio fazem parte os eventos, suas conseqüências e as reações que provoca: o evento principal é complementado por um background: circunstâncias, contexto e história. Os comentários incluem expectativa e avaliação.

É discutível que o lead seja realmente um sumário, quer se entenda essa palavra como índice ou como resumo: o fato principal ou o evento considerado mais relevante não resume ou indicia a totalidade do episódio. Por outro lado, comentários não são universalmente incluídos nas coberturas, a não ser que se considerem nessa categoria declarações de políticos ou especialistas, que também poderiam ser tomadas apenas como reações.

 

Narrativa em jornalismo - Em que pese sua tradição como gênero textual e a associação corrente entre news e story, a narrativa tem espaço limitado no texto jornalístico impresso. Ela aparece eventualmente na documentação de sentenças tópicos ou tópicos frasais, relatando breves episódios; então reproduzindo fatos passados há muito, com base em documentos de época, processos judiciais etc.; ou na reprodução de um testemunho.

A narrativa compõe-se estruturalmente de três níveis: o dos eventos, caracterizado por núcleos verbais que expressam ações (feitos, deslocamentos, enunciações), dispostos sucessivamente em cada seqüência; a informação sobre personagens e outros elementos ativos na história, sejam como explicativos, restritivos, sentenças ou formas verbais imperfectivas; e as indicações ou funções que cumprem outros papéis, tais como localizar a ação ou referi-la a uma realidade qualquer. De uma seqüência para outra, pode haver deslocamento de tempo, lugar ou narrador.

Onde esse tipo de apresentação é comum, quase obrigatória, é nas reportagens dos telejornais. Nelas, o apresentador ou o repórter formulam a proposição principal, situam o que é conceitual ou os fatos de que não se tem registro visual, e dão nomes e sentido a pessoas e lugares das seqüências gravadas em vídeo. A imagem domina e, associada à palavra, alia emoção e compreensão.

Foram reunidos nesta exposição alguns dos aspectos lingüísticos que nos parecem mais interessantes no que se refere ao texto jornalístico, assunto pouco conhecido e sobre o qual há muito que estudar.

Quais as vantagens desse estudo? Em primeiro lugar, estabelecer o jornalismo não como feudo das ciências sociais – ou ciência social aplicada – mas como fenômeno de linguagem, portanto igualmente social e mental, aberto à abordagem cognitiva. Em decorrência, propor que o conhecimento que se formaliza em enunciados jornalísticos – seja ele ideológico, científico, crítico etc. – seja estudado a partir dos próprios enunciados, e não de conjecturas externas e eventualmente dogmáticas sobre o que a sociedade é ou pensa ser.

Em segundo lugar, observar que, na era da informação, o jornalismo é atividade estratégica e o domínio de suas técnicas condição necessária para a democracia e o intercâmbio entre comunidades e nações.        

 

Trabalho para o dia 10 de abril: descrever uma observação. Obrigatoriamente não precisa ser um fato que gere notícia. Mas descrever uma situação sem adjetivação que torne o leitor capaz de reconstruir no seu imaginário.