Aula
8 - Reportagem e literatura - 23 de abril

Nilson Lage diz que “para muitas áreas do conhecimento abstrato, a letra é a melhor maneira de preservar e a leitura é a melhor maneira de adquirir informação e documentação sobre as transformações que ocorrem em ciências, artes e legislação”. Para ele, é o caso da reportagem, ao cuidar de um fato singular, ou de uma série de fatos, fazendo o levantamento “de um assunto ou o relato de um episódio complexo, de acordo com um ângulo pré-estabelecido”. Partindo da pauta, que é um projeto de texto, a reportagem percorre caminhos onde não é necessário seguir a rigidez da notícia, mas seu estilo pode variar de acordo com o veículo, o público, o assunto. A autoria se torna muito importante, pois quando a reportagem é interpretativa fica muito próxima do artigo, envolvendo, inclusive, a competência de quem analisa. Porém, a conceituação mais difundida, em jornalismo, é de que os conceitos de verdade, objetividade, imparcialidade e honestidade substituem uma única busca: a da realidade.

No jornalismo, a grande notícia – e quase sempre a notícia mais importante – é a reportagem. Ela ocupa o primeiro lugar como cobertura jornalística. A reportagem está na essência do jornalismo, porque no jornalismo é a versão que conta, por isso, Juarez Bahia adverte que é fundamental ouvir todas as versões de um fato para que a verdade apurada não seja apenas a verdade que se demonstra e, tanto quanto possível, comprova. Sodré e Ferrari foram mais práticos em sua definição, especificando ser necessário que o repórter esteja presente, servindo (e, portanto, diminuindo a distância) para aproximar o leitor do acontecimento. Mesmo não sendo feita em primeira pessoa, os teóricos da comunicação sugerem que a narrativa deve carregar em seu discurso um tom impressionista que favoreça essa aproximação. Também dizem que as principais características de uma reportagem são: predominância da forma narrativa, humanização do relato, texto de natureza impressionista e objetividade dos fatos narrados.

 

O fato e a versão do fato - Em jornalismo não se fala de retratar o fato, mas a versão do fato. Clóvis de Barros Filho aponta que, com o surgimento das grandes revistas e do jornalismo interpretativo, passou-se a questionar as restrições próprias a uma “retratação” fiel da realidade. Só uma valoração, uma hierarquização de temas, poderia permitir ao receptor distinguir com maior facilidade o essencial do menos importante. A diferença nem sempre é tão clara entre realidade e verdade. Se, em jornalismo, uma entrevista é feita e o repórter deturpa informações obtidas, apenas o entrevistado saberá que aquilo não corresponde à verdade (e sim ao imaginário), mas para os leitores aquelas informações assumirão o papel da verdade, serão atribuídas ao real e se instalarão como parâmetros.

Neste caso, a verdade está também ligada à credibilidade, à função social de que é revestida a imprensa, como fiscalizadora da sociedade e do poder público. Lúcia Santaella explica que embora a realidade só seja inteligível através de investigações, é dela que a investigação recebe suas determinações. “Não é por obediência ou desobediência a padrões culturais de verdade que o investigador erra ou acerta, mas porque seus resultados têm compromissos com certo estado de coisas”. Ao preparar uma reportagem, o jornalista faz um novo recorte do material que apurou e que passa a ser o objeto dinâmico, cujo objeto imediato será o texto que irá preparar. O leitor terá a reportagem veiculada como objeto imediato do objeto dinâmico “real”, e ao fazer a leitura outro signo se processa, recortando a própria matéria como objeto dinâmico e assim infinitamente sendo refeita.

 

Oswaldo Coimbra fala de três estruturas para a reportagem:

A “dissertação” (expor, explanar, explicar ou interpretar idéias. Dar conhecimento de algo, com a finalidade de convencer, persuadir, influenciar. Fazer crer em algo. Consistência de raciocínio e evidência das provas.). Exemplo:

Centenas de guerrilheiros espalham-se pelas colinas. Juram combater até à morte pelo Islã. Aclamam ensurdecedoramente Bin Laden e gritam a todo o instante "Deus é Grande!" e "Morte à América!". Abdulah está entre eles. É um jovem de 14 anos, recrutado numa escola corânica do Paquistão. Para ele, "é dever de todo o muçulmano lutar contra a América, porque a América quer matar todos os muçulmanos". (...)

A “descrição” (Caracterizam pessoas, acontecimentos, fenômenos, objetos, lugares). Exemplo:

Localizado junto à Câmara Municipal, bem no centro de Maia, o mais recente centro comercial de Maia, o central Plaza, é o novo ponto de encontro dos adolescentes. A qualquer hora do dia se encontram jovens nas mesas da Praça da Alimentação. Os estilos são variados. Os que gostam de se mostrar como "bons alunos" geralmente escolhem a pizzaria e demoram-se pouco tempo. Vestem-se à jovem adulto. Trazem mochilas cheias de livros e cadernos. Os outros fazem do Central Plaza uma segunda casa. Vão almoçar, aproveitam para ir ao cinema e ficam por ali a conversar, povoando o centro comercial de gritos e falatório. São facilmente reconhecíveis. Vestem-se de roupa larga, descontraída. Ao contrário dos outros, quanto muito transportam um caderno de capas manchadas de tinta.

A “narração” (O jornalista conta uma história). Exemplo:

Com livros era, compreensivelmente, mais seletivo, mas igualmente curioso e antenado. Sua última paixão literária foi “Harry Potter” — uma das poucas coisas, aliás, que consegui descobrir antes dele. Comecei a ler a série assim que o primeiro volume foi publicado nos Estados Unidos, e fiquei no maior entusiasmo: aquilo era muito bom! Comentei o assunto num dos nossos almoços de sábado, e ninguém se interessou muito. Imagina, um best-seller infantil, que idéia...!

Mas, na semana seguinte, o contingente de apóstolos de “Harry Potter” ganhou a adesão do José Lewgoy, que leu o livro de uma sentada só e estava louco para ler a continuação. A partir daí fomos lendo os outros volumes mais ou menos ao mesmo tempo, igualmente encantados. Ele — claro! — viu o filme bem antes de mim. Gostou muito. E ficou no auge da felicidade quando o amigo Gravatá lhe trouxe de Kiev, no ano passado, o DVD do filme em ucraniano, que, junto com o ídiche, era a língua dos seus pais. Falava as duas, além de inglês, francês, italiano, russo e alemão.

Quando morreu, o livro que estava na mesinha de cabeceira a seu lado, no hospital, era a edição inglesa de “Harry Potter” IV, o melhor de todos, que estava relendo.

Esta última sempre se pensou como sendo aquela que pode estabelecer uma relação entre narrativa literária e a narrativa jornalística. Mas se entre a narrativa jornalística e a literária existe alguma fronteira, ela não é facilmente demarcável, uma vez que, analisando três possíveis características que permitiriam distinguir um do outro, ainda restam dúvidas. Com relação a conteúdo (primeiro), não há exclusividade de temas. O mesmo se aplica ao caráter ficcional e não ficcional dos textos. E põe em dúvidas a terceira que seria a função do texto, uma vez que o jornalismo teria como função ser utilitário, enquanto o literário seria mais estético.

      Uma das principais características do jornalismo interpretativo é a busca de todos os elementos que auxiliem o leitor a compreender o que está acontecendo, suas causas, origens do que presencia e as conseqüências no futuro. Por não sair todos os dias, a revista pode explorar novos ângulos, buscar notícias exclusivas, ajustar o foco para aquilo que se deseja saber e entender o leitor de cada publicação, descobrindo o que ninguém sabe sobre ele e explicá-lo de forma diferente.

 

Trabalho para dia 01 de maio (mesmo sendo feriado): escreva uma matéria com uma das três estruturas.