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9 - Novo jornalismo - 07 de maio

“Novo Jornalismo”, ou “Jornalismo Literário”, ou ainda “Romance de Não-Ficção”, podem parecer coisas distintas, mas consistem numa modalidade de narrativa que funde elementos de ficção com a objetividade jornalística. A história mais conhecida é a de que esse estilo surgiu nos Estados Unidos, por volta dos anos 50, com o norte-americano Truman Capote. A verdade é que literatura e jornalismo nunca deixaram de se relacionar, mesmo que indiretamente. O Novo Jornalismo extrapola os limites do jornal impresso. É quando surge o livro-reportagem, que se tornará o veículo mais comum para esse novo gênero. Algumas revistas também vão servir de laboratório para esse novo tipo de experiência, como a The New Yorker (Hiroshima, de John Hersey), a Esquire, e a Rolling Stone. No Brasil, a revista Realidade e o Jornal da Tarde também publicaram relatos dessa espécie.

Os redatores de revista, assim como os primeiros romancistas, aprenderam por tentativa e erro algo que os estudos acadêmicos demonstram: que o diálogo realista envolve o leitor mais completamente do que qualquer outro instrumento. Também situa e define o personagem mais rápida e efetivamente do que qualquer outro recurso. Pode se ver um exemplo no seguinte texto:

Há um grupo de árabes extremamente respeitáveis, e, ao aproximar-me, vejo o rosto branco de um senhor de idade entre eles. Usa um boné com uma fita dourada amarrada em volta e uma jaqueta curta de pano de cobertor. Trocamos um aperto de mãos. Tiramos nossos chapéus e eu pergunto:

- Dr Livingstone, eu presumo?

- E ele responde: Sim!

O texto é de autoria de Henry Morton Stanley (1841 – 1904) para o New York Herald, em 1872, ao localizar o missionário escocês David Livingstone, dado como perdido na África.

No entanto, na década de 1960, de um lado ficaram os jornalistas que cobriam o dia-a-dia, produzindo matérias factuais, de interesse imediato. De outro, os repórteres do feature, que se dedicavam às chamadas matérias de interesse humano, vulgarmente conhecidas como “matérias-frias”. Enquanto os jornalistas de matérias factuais competiam entre si pelo ineditismo (furo), os jornalistas de feature gozavam de certa liberdade para experimentações de natureza literária.

O Novo Jornalismo se organizou muito mais movido pelo instinto do que em torno de uma teoria. Mesmo assim, ele deixou registrados quatro recursos básicos do gênero:

- a reconstrução da história cena a cena;

- o registro completo dos diálogos;

- a apresentação das cenas pelos pontos de vista de diferentes personagens e

- o registro de hábitos, roupas, gestos e outras características simbólicas do personagem.

Se escritor e jornalista diferem entre si quanto ao discurso, o mesmo nem sempre ocorre com o conto e a reportagem, por exemplo. As duas formas em muito se assemelham. O conto é a forma mais curta da narrativa literária. A reportagem é a forma mais longa em jornalismo. Com certo cuidado, podemos afirmar que a reportagem está para o jornalismo como o conto está para a literatura. Em literatura, o conto, geralmente, já se inicia próximo do momento de maior tensão, do clímax.

Mas nada impede que uma narrativa seja também um “crescendo”, ou seja, que os elementos (personagem, ação, espaço, tema, etc.) estejam organizados de modo a deixar para o final o conteúdo de maior impacto. Tudo depende da escolha que será feita previamente. Seja no conto ou na reportagem, uma coisa é certa: há sempre – do ponto de vista do leitor-alvo – linguagem, forma e angulação mais adequadas para a narrativa.

Em uma reportagem narrativa, é possível suscitar que sua matéria não se encerra depois de narrados os acontecimentos. Ser expressivo significa, dentre outras coisas, que sua reportagem narrativa tem a obrigação de informar sempre do modo mais transparente. Por outro lado, ser literário significa, grosso modo, narrar, com efeito, com beleza e imaginação. Sem perder de vista os fatos.

A reportagem narrativa é um dos gêneros mais importantes em jornalismo e, provavelmente, o que mais se aproxima o jornalismo da literatura. Mas jornalismo é mesmo gênero literário? É literatura menor, maior, útil? Definir os laços que unem os dois estilos é tão difícil quanto demarcar as divisórias. Assim como alguns valorizam a condição literária do jornalismo, reconhecendo-o como uma espécie de literatura sob pressão, há os que rejeitam esta hipótese e até acusam o jornalismo de obstruir a criação literária.

Podemos dizer que jornalismo é uma das categorias da literatura. Em outras palavras, é literatura de massa. Segundo Alceu Amoroso Lima, jornalismo é um gênero literário, com seu próprio estilo, as suas regras, o seu jargão.

 

Precursores

1. Os 10 Dias Que Abalaram O Mundo, de John Reed

John Reed com certeza não tinha convicção de que estava fazendo “novo jornalismo”, mas se tornou um dos fundadores do estilo. Sua reportagem é, até hoje, o mais famoso e vibrante relato sobre a Revolução Russa de 1917. Não se trata, entretanto, de uma reportagem como as outras. Os 10 Dias que Abalaram o Mundo inaugura o formato livro-reportagem, que viria a ser, mais tarde, o principal suporte do jornalismo literário.

 

2. Os Sertões, de Euclides da Cunha

Se John Reed não sabia que estava fazendo novo jornalismo, Euclides da Cunha nem viveu para saber do que se tratava. É inquestionável, contudo, que Os Sertões faz uso tanto da narrativa literária quanto da objetividade jornalística. Independente de ser ou não “novo jornalismo”, a influência do autor, especialmente no Brasil, mas não exclusivamente (o livro foi traduzido para mais de 10 idiomas), é incontestável. Há quem diga que a Guerra de Canudos não teria um peso histórico tão importante não fosse tão brilhante a obra de Euclides da Cunha.

 

3. A Sangue-Frio, de Truman Capote

A Sangue-Frio inaugura o gênero como nós o conhecemos hoje. Capote cria um estilo que ele prefere chamar de “Romance de Não-Ficção”, baseado em fatos reais, mas que explora certos temas que não teriam espaço no jornalismo convencional, tais como a psicologia dos personagens. A Sangue-Frio é a história de um brutal assassinato ocorrido no fim dos anos 50 em Holcomb, uma cidade minúscula no estado do Kansas.

 

Trabalho para 15 de maio: um texto utilizando os quatro recursos básicos do gênero.