A auto-suficiência social


Estávamos em Montevidéu quando o governo brasileiro anunciou a auto-suficiência em petróleo. Os jornais destacaram que o Brasil chega ao ponto em que pode candidatar-se a ingressar entre as potências mundiais, já que, na América Latina, apenas Argentina e Venezuela estão neste patamar.

Ao mesmo tempo, a mídia uruguaia destacava que os problemas se acirram em nosso país, numa espécie de contraponto ao anúncio oficial: a economia cresce e decrescem os indicadores sociais.

Pode-se fazer uma comparação: quem chega a Montevidéu tem impressão positiva pois a cidade é limpa, os motoristas são educados e o governo soube dar ao rio da Prata tratamento paisagístico que permite a utilização de seu entorno por toda a população.

Disseram que a polícia tirava das ruas os pedintes. Não foi o que vimos. Em muitos cruzamentos, havia menores e mendigos e o medo de assaltos à noite ou num passeio é uma constante.

Por outro lado, a diferença social é menor, por exemplo, no que se refere à educação, tendo erradicado o analfabetismo; e um rígido controle da natalidade, que permite um planejamento de políticas públicas, que estamos longe de desfrutar.

Dirão que é um país pequeno, fácil de administrar. Não é o que apontam os especialistas. Tanto no Uruguai, quanto na Argentina, a discussão gira em torno do imposto de renda. Ali há um intenso debate que tem na mira este e o importo sobre a riqueza. Não só faz parte das conversas, como o governo da Argentina teve uma flagrante derrota quando tentou aumentar o imposto de renda.

No nosso caso, é fácil constatar que temos impostos de primeiro mundo (muito alto para a nossa realidade) e serviços do terceiro, levando uma parcela substancial dos nossos salários. Pense que em cada produto que você compra, inclusive alimentos, em média, ao menos um terço vai para o governo.

A auto-suficiência em petróleo é boa, mas não é suficiente. O governo deve à população respostas efetivas para os seus problemas. E não basta dizer que houve mudança de administradores e que não deu tempo para implementar suas políticas. Teve todo o tempo em que foi oposição para observar e pensar alternativas.

Temos muito que aprender nas relações internacionais. Em especial no que se refere à educação e cultura. Esta, sem sombra de dúvida, a base para mudanças efetivas nas relações políticas, econômicas e sociais.