Barreiras do preconceito


 

Uma deputada federal foi acusada de ser “politicamente incorreta” ao dizer que as pessoas têm dificuldades em lidar com aqueles que são portadores de alguma deficiência física. Não estava longe da verdade.

Num outro caso, soube que um casal teve dificuldade em aceitar que um órgão do filho falecido fosse doado a um portador de necessidade especial. “Não haveria alguém em melhores condições para recebê-lo?”

Ainda são muitos os casos em que, desde a gestação, torna-se doloroso para a família saber que vai ter alguém que foge dos padrões e que precisará, ao longo da vida, de cuidados especiais.

Não somos preparados para conviver com a diferença. Isto fica claro em muitas ocasiões, mas, especialmente, quando se trata de uma pessoa como um portador da Síndrome de Down.

Levamos algum tempo para deixar de usar expressões como “o doentinho”, “aquele” ou ainda mais irracionais. No entanto, “a carga”, em muitos casos, se transforma em graça. Porque ela está aí e é preciso conviver e desfrutá-la. Da melhor forma possível.

A Campanha da Fraternidade da Igreja Católica, este ano, está tratando deste tema. Pena que seja num espaço tão pequeno de tempo (Quaresma) e sem a intensidade que deveria merecer.

Em comum, nos três casos contados, existe uma discriminação latente, que as pessoas não reconhecem por julgar que são uns “coitados”, dos quais sentem pena, mas que não querem muita proximidade. Se possível, evitando que façam parte de suas famílias.

Sei de casais em que o marido “culpou” a esposa por ter um filho com necessidades especiais. No entanto, o histórico de saúde mostrava que era na família do homem que estes casos haviam acontecido.

Então, não é uma questão de culpa, mas sim de conscientização. Aqueles que venceram as barreiras do preconceito sentem-se abençoados por um filho assim. São capazes de dar graças a Deus por seus demais filhos serem “perfeitos”, mas também agradecem porque Deus, de alguma forma, colocou um “anjo” em suas vidas.

A Campanha pode ser um bom tempo de reflexão, mas num país onde a atuação governamental é tão carente no atendimento àqueles que precisam de acompanhamento especial, também é preciso ação. E, em Pelotas, somos privilegiados por termos tantas instituições que lidam com estes “anjos”.

Mas, ao mesmo tempo, com tantas necessidades de cobertura de seus gastos e de gente que disponha de seu tempo por uma causa que - pode ter certeza - é muito especial.