Antes que se disparem as bombas


 

Um professor da área de Publicidade e Propaganda apregoava que, para se tornar um bom profissional da área, era necessário andar de ônibus. A explicação era bem simples: é o lugar onde se pode ouvir o povo falando a respeito de tudo. E de todos. Poderia ser considerado um bom termômetro para avaliar, inclusive, campanhas colocadas no ar.

É possível acrescentar que, também, as filas bancárias têm esta possibilidade. Na difícil espera de quem vê pela frente cinqüenta pessoas e apenas dois caixas atendendo, quase impossível não se tentar uma conversa com os vizinhos de infortúnio. E acaba se conhecendo desde "analistas sociais" até "técnicos de futebol". Tudo com muita convicção e profundo conhecimento de cada uma das áreas abordadas.

Mas, alguns dias atrás, tive que tirar o chapéu para uma garota (quero crer, nos seus 17, 18 anos) que quase levou a uma revolução pois liderou um grupo de mais três velhinhas, que não conseguia entender que o Brasil, com todo o seu potencial, tivesse filas de banco como aquela. Confesso que não consegui estabelecer qual era a analogia, mas tive que concordar que era infame.

A nossa Joana D’Arc discursou de forma tão inflamada que chamou a atenção dos seguranças, que resolveram reorganizar a fila, com o surgimento de um terceiro caixa. Imprescindível dizer que tudo andou mais rapidamente.

E daí? Fiquei pensando que, naquele pouco tempo em uma fila de banco para pagamentos, tinha uma lição que os chineses já haviam ensinado há muitos séculos: se fôssemos feitos para falar mais, não teríamos dois ouvidos e apenas uma boca.

Necessário se faz silenciar e ouvir. Pena que nossos políticos chegam ao povo dispostos a fazer de uma "massa disforme" algo à sua imagem e semelhança. Sem qualquer comparação com o Ser superior que nos criou, mas na petulância de quem pensa que é capaz de fazer exatamente isto: evoluir para ouvir. Pode parecer esquisito. Mas há outra forma: transformar o povo em depósito de nossas mensagens não deu certo porque o contrário não poderia ser a salvação da roça?

Algo parecido com o que se ouve a respeito da tragédia que se abateu sobre Nova Iorque. Podem conversar, nas ruas, que ouvirão a expressão "nem tudo está bem contado". O que parece significar que apesar do autêntico dilúvio de informações que caiu sobre nós, ainda assim, tem coisas escondidas, ou como dizia um amigo, "sonegadas" para o bem de nossa consciência cristã e ocidental.

Realmente, temos que rezar pelos mortos. A maior parte sem nenhuma relação, ou sequer sabendo que existe um oriente, onde as coisas são diferentes e os homens dispõem-se a morrer por uma causa. Em contraste com a liderança exercida – até pode ser mal exercida – está a frouxidão de nossos mandantes.

Quem tem consciência da história pensa que, ao surgir o século XXI, não devemos repetir o que aconteceu no início do século passado. Mas as lideranças que se apresentam parecem querer repetir o mesmo filme. Que já vimos. E sabemos no que deu. A construção da paz depende da força que a população der ou não der a seus governantes. Eis aí um bom motivo para ouvir. Ouvir muito. E deixar que fale o coração. Antes que se apertem novamente os botões que disparam as bombas.