Brincando com o fogo


No princípio, cheguei a pensar como na Bíblia: “e se houver apenas dez justos?”, pedindo clemência ao bom Deus para com todos eles. Mas já não dá mais. O que vem acontecendo no Congresso Nacional extrapola qualquer abuso político que já tenha sido cometido.

A morosidade de sua ação, que já dava, ao longo do último semestre, a forte indicação de que suas investigações acabariam em pizza; a incapacidade de produzir normas eficazes para combater a corrupção nas campanhas eleitorais; uma convocação estapafúrdia que se transformou numa licença duplamente remunerada; e agora os números: temos uma casa legislativa mais cara que a norte-americana e - o golpe final - disposta a aumentar seus pares como num clube social em que se privilegia quem “pede” ingresso.

Como diria um personagem do Jô Soares – quando ele era de fato um humorista – saído de um coma: “tira os tubos!”.

No momento em que as correspondências começaram a chover sobre o Congresso, pensei: “os senhores e senhoras deputados vão correr para devolver aquilo que estão recebendo sem trabalhar!”. Novamente, os números são mortais: as devoluções não chegaram a 20%!

Então, não creio que exista outro remédio: somente a fúria do voto, capaz de cassar a todos aqueles que estão no Congresso, será capaz de alterar esta situação.

A população anda cansada com estas atitudes, tão cansada que já não acredita que seja capaz de haver uma mudança. E esta é uma seara muito fértil para que se apresentem aventureiros com idéias mirabolantes, envoltas em sedutores argumentos.

Sinto muito por aqueles dez que talvez não mereçam entrar na mesma vala, mas é necessário que a população coloque na lista dos não elegíveis todos aqueles que hoje detêm mandato parlamentar. Se não pecaram por ação, no mínimo, pecaram por omissão.

Dá a impressão que os deputados estão fazendo mais ou menos que nem as crianças: vão esticando a corda para ver até onde podem ir no que aprontam.

Pois foram longe demais. Brincaram com o fogo e agora têm que assumir um recesso em seus mandatos. Reciclem-se e, quem sabe, poderão voltar. Na democracia, não há pena de morte para mandatos. Mas que é bom ter cuidado isto, com certeza, faz bem.