Buscando respeito e dignidade


Minhas considerações a respeito do tele-atendimento nas páginas do Diário Popular levaram a uma série de comentários, em especial de pessoas com mais idade (vamos dizer, as que passaram dos 40 anos), que enfrentam problemas nos atendimentos automáticos de caixas eletrônicos e, um outro, os telefonemas de tele-marketing, que sequer perguntam se estamos dispostos a ouvir suas mensagens e jogam sobre nós, por minutos preciosos – já que poderíamos estar nos dando ao direito de nada fazer - suas mensagens.

O professor Cilon sempre comenta que prefere chegar ao caixa, cumprimentá-lo, e entregar suas contas para pagamento. A bendita maquinazinha, às vezes tão mal educada, nunca responde a nossas perguntas. Pelo contrário, seguidamente, tranca e, quem diz de convencê-la de que só queremos o que é nosso: nosso dinheiro, nossa conta paga, nosso amor próprio resgatado.

Então, no esquema de senhas e mais senhas, para os que chegaram, como eu, perto dos 50 anos, além de tentar memorizar, ainda fazem o que é dado pelos bancos como pecado mortal: têm na carteira uma ‘cola”, para lembrar de números e letras. E, para nossa tristeza, as benditas letras mudam de lugar com freqüência, o que sequer nos permite o direito a um “treino” para lembrar do local onde estão.

Claro que o pessoal dos bancos nos olha de nariz torcido, lembrando que são outros tempos e que temos que nos acostumar. Por quê? Porque não temos o direito de escolher entre o caixa para quem podemos dar um bom-dia e uma máquina?

Alguns acreditam que tenho algumas teses meio estranhas – para não dizer malucas – mas, parece-me, salvo melhor juízo, que estas “inovações tecnológicas” são uma espécie de vingança que alguns espíritos adolescentes - e aqueles que estão iniciando a idade adulta – arquitetam contra os mais velhos. Seria a forma de mostrar que este é o mundo construído por eles. Para eles. Conseqüentemente, agora é deles.

Se possível, querem cercear o nosso direito de escolha e policiar nossas opções de caminhos. Deve haver um pouco de psicológico: Um estigma, pois quem está chegando ao meio ou ao final da caminhada precisa de um braço (não de uma tala) amigo.

Muito forte? Talvez seja. Mas em nossa amada terra Brasil, as formas apresentadas até agora pelo dito modelo de desenvolvimento não foi capaz incluir um maior número da população nos benefícios básicos. Pelo contrário, aumenta o número dos desempregados, dos jovens que ficam pelas ruas sem qualquer atividade útil, com uma expressão perdida, que é um demonstrativo claro de que erramos em algum lugar, ao longo do caminho.

É esta sensação que tenho ao pensar que preferia que a tecnologia fosse sacrificada ao invés de que vagas e empregos fossem suprimidos, num sumidouro que não mostrou ter um outro lado tão atraente, mas sim a estranha sensação de que se trocou o pouco por nada.

Reminiscências de quem está “no alvorecer da terceira idade?” É bem provável. Mas uma reminiscência que é, cada vez mais, compartilhada por quem não aceita ter sua vida cerceada, seja ideologicamente, seja no usufruto de um serviço tão elementar, quando o atendimento em um banco. Até porque, a não espernearmos por nossos direitos, chega o momento em que sequer teremos voz para reivindicá-los. A mesma voz que junta se transforma num brado por respeito, dignidade e compreensão de que este até pode ser um bom mundo. Desde que seja para todos.