Coerência


O papa Bento XVI conseguiu, mais uma vez, ganhar as manchetes dos meios de comunicação e causar polêmica. Desta vez, foi por causa de um documento liberado com uma série de orientações, em especial sobre a Eucaristia.

Na sucessão entre João Paulo II e Bento XVI muitos jornalistas tiveram que reconhecer que, embora a morte de João Paulo fosse anunciada, a grande imprensa não estava preparada para fazer uma adequada cobertura, pois não diferenciava a troca de um presidente ou um primeiro-ministro do sumo pontífice da Igreja Católica.

O mesmo aconteceu agora. O que Bento XVI fez foi sistematizar as orientações emanadas do encontro dos bispos do mundo inteiro, acontecido em 2005. No entanto, pinçando pontos e colocando-os fora de seu contexto, ganhou os contornos de “escândalos”, pois comprovando o pensamento “retrógrado” da Igreja.

Nem é preciso lembrar que é preciso ter calma. A posição do Vaticano com relação a todos estes pontos já era conhecida e não se esperava que um papa que foi sagrado com quase 80 anos fosse fazer uma revolução nos costumes. Pena foi a forma como alguns meios colocaram as manchetes: “Papa quer a Missa em Latim”; “Papa quer a Missa com o canto gregoriano”; “Papa não permite que separados vão à mesa da comunhão”.

Qual é a nova? Bento XVI “recomendou” que as Missas em grandes eventos, com envergadura internacional, sejam na língua oficial da Igreja. Embora alguns analistas a considerem como uma língua morta, é a língua oficial de um estado: o Vaticano. “Recomendou” que, também, em situações especiais, se valorize o cântico gregoriano, uma preciosidade que só quem já teve o prazer de ouvir pode, de fato, avaliar.

Com relação à aproximação dos separados da mesa da Eucaristia, embora pessoalmente discorde e saiba de alguns bispos e sacerdotes que fazem vista grossa quando desta aproximação, a Igreja, oficialmente, não mudou nada, continuou com o mesmo pensamento que já tinha.

Conheci um bispo, na verdade um bom pastor, que dizia que seu papel era auxiliar os que vinham atrás a andar mais rápido e, ao mesmo tempo, dar uma segurada naqueles que corriam demais à frente. Ao longo dos séculos, com a Igreja tem sido assim. Não se devem analisar seus documentos sem que se tenha conhecimento de causa. Ou, o mais provável, é que se façam avaliações parciais, quando não carregadas de preconceitos.