Competição e rivalidade


Os Jogos Pan-Americanos estão aí com um alerta: a competição é sempre saudável, mas a rivalidade acirrada pode ser doentia. Dito de outra forma: incentivar garotos e garotas a disputarem por melhores colocações é algo positivo, se isto não significar “passar por cima dos outros de qualquer forma”. Acreditar que a “pátria veste chuteiras” é um exagero próprio de mal-intencionados.

Já disse uma vez que a rivalidade com outros países, incentivada por certas “lideranças” e por alguns meios de comunicação, é algo que não se vê na prática de nossas fronteiras, onde há, isto sim, a luta pela sobrevivência e, muitas vezes, encontramos famílias separadas por uma linha territorial que não lhes diz nada, mas que as torna de nacionalidades diferentes.

Entre os jogos do Pan e noticiários recentes envolvendo problemas sérios que vivemos, fico com a convicção de que não precisamos rivalizar com ninguém: somos nossos próprios aliados e, em alguns momentos, nossos mais ferozes adversários! Conseguimos fazer com que, num país eternamente potencial, vivamos profundos contrastes em aspectos sociais, culturais e econômicos.

Pena é que, embora as classes mais simples já vivam esta realidade, somente agora a classe média comece a se dar conta de que está indo pelo mesmo caminho. Pois se a falta de atendimento básico é marca das classes populares, agora a classe média também começou a ser atingida, como é o caso do transporte aéreo, não apenas no que se refere às péssimas condições de serviços, como, também, na perda de vidas - nas estradas e no ar.

Historicamente, as transformações aconteceram quando a classe média se sentiu estrangulada e, precisando de auxílio, recorreu ao discurso de que as mudanças atendem às populações mais pobres.  É uma parte da verdade, mas não é toda: vejo com interesse declarações do tipo “o governo deveria ser mais sensível com os nossos problemas”, “parece que nós é que estamos atrapalhando nos aeroportos, pois não nos dão explicações e nos tratam como marginais” e “onde está o nosso dinheiro se a segurança está sendo usada contra nós?”

Bem-vindos ao mundo real. Infelizmente, o que está acontecendo com a classe média é a ”rivalidade” que precisamos vencer com todas as nossas forças: o marasmo e assumir que todos somos cidadãos de primeira classe – com o direito de competir num país em que as chances de vencer os desafios que a vida apresenta não excluem, mas provoquem um olhar solidário e fraterno sobre a nossa realidade.