Com um pé na África


 

A recente passagem do presidente Lula pela África foi motivo de muitas matérias nos meios de comunicação, com manifestações que variaram do abertamente favorável até a ridicularização do que aconteceu.

Creio que a idéia, em princípio, é interessante: a aproximação do Brasil com um continente de onde se originou um grande percentual de brasileiros. Tomando a história e a genealogia, é necessário reconhecer que, praticamente todos nós, brasileiros, temos um pé na África.

No entanto, nosso presidente tem dificuldade em chegar a um ponto de equilíbrio quando solta o verbo, ou quando uma câmara é acionada: em muitas vezes, infelizmente, beira à falta de senso do ridículo.

É bem verdade que nossas origens negras estão manchadas pelo sangue dos navios negreiros, do açoite e da casa grande. Mas, de quem é a culpa? Minha? Não. Nossa, enquanto nação? Não. O comércio internacional de seres humanos foi feito por alguns maus brasileiros, em conchavos com nossos colonizadores de então, que saiam em busca de mão de obra forte, facilmente ajustada e barata.

Pedir perdão e chorar? Ora, isto é desconhecer a história e colocar-se em um lugar que não é o nosso. Soa estranho que um presidente ultrapasse o limite do bom senso e faça um jogo de cena que está mais para o terreno do folclórico, do que do real.

Entre o continente africano e o Brasil há mais o que fazer do que este tipo de jogada. Poderíamos intensificar intercâmbios: os africanos que vêm para cá aprendem e ensinam. Poderíamos ter a mesma humildade e ir para lá, primeiro para aprender e, se for o caso, ensinar.

É o que tenho sentido nos dois casos mais recentes que acompanho: a vinda dos padres Quintino e Martinho, de Angola. O primeiro esteve entre nós durante quatro anos, enquanto cursou Comunicação Social. O segundo ainda se encontra em Pelotas, cursando Serviço Social. Ambos têm uma vivacidade impressionante pelo aprendizado, constituindo-se em modelos deste saudável relacionamento.

Podem ter certeza: incrementar o intercâmbio universitário seria mais barato – e mais produtivo - do que uma viagem presidencial com todo o seu séquito.