Contando os trocados


Não é de agora que ouço dizer, em tempo de aprontar o orçamento das prefeituras, estados e união, que ele não passa de uma “peça de ficção”. Fora da realidade, pois a receita, no caso do Estado, é menor em relação às despesas, mas, legalmente, precisam “bater” os recursos que entram com os gastos, não importando se for apenas para “inglês ver”.

Pois a governadora do Estado enviou à Assembléia Legislativa uma peça orçamentária que não é de ficção: foi realista, mostrando as receitas e os gastos que podem ser feitos em 2008. A surpresa veio quando - em tempo de pedir transparência - nossos deputados estaduais chegaram a cogitar em devolver o projeto, porque ele não estava de acordo com o “ritual legislativo”.

O “legalismo”, muitas vezes, irrita. Todos nós sabemos da necessidade de cumprir a Lei. No entanto, quando a Lei foge da realidade, alguma coisa está errada: porque o governo precisa idealizar uma peça de ficção, se todos nós sabemos que ela não é real e, bem pelo contrário, há mais chance de aumento do rombo causado pela despesa, em detrimento da receita?

Na economia familiar, isto pode significar o início do caos, pois quem acaba entrando no cheque especial, ou abusa do cartão de crédito, está criando uma bola de neve - facilmente perde o controle - e, embora pequena inicialmente, aumenta assustadoramente! O pai e a mãe de família sabem que não podem e não devem fazer dívidas que superem o rendimento familiar. Quando meu pai tinha armazém, na Vila Silveira, lembro muito bem de crianças e adultos chegando ao balcão contando os trocados: Podiam gastar aquela quantia em mãos, mesmo que, para isso, precisassem diminuir a quantidade do arroz, do feijão, ou de qualquer outro mantimento.

Os deputados fariam muito bem se, ao invés de passar pelas vilas apenas em tempo de eleição, apertando mãos e fazendo promessas, “estagiassem” por alguns dias em meio à população. Sobrevivendo com o que a família recebe e tendo contados todos os centavos a serem gastos, mudariam o ângulo “legalista” a partir de onde enxergam o projeto de orçamento. Cada centavo ganho com o “suor do rosto de cada um”, também precisa ser gasto de forma comedida, para não ter o constrangimento de passar por “caloteiro”. Pois esta gente de periferia ainda teima em seguir ditames da ética (mesmo sem manuais que ensinem o sentido teórico do termo), onde “sujar o nome” é algo inimaginável – uma lição que precisa ser aprendida por nossos representantes legislativos.