As contas da sociedade


Minha especialidade, é óbvio, não é a economia. Mas como esta área afeta o bolso de todos nós, é impossível não dar palpites a respeito do que está acontecendo nestas idas e vindas de reformas, contra-reformas e manifestações, todas muito sérias, até serem desmentidas, ou retificadas por números atualizados.

Administradores públicos – em todos os níveis: federal, estadual e municipal – quando em campanha eleitoral, têm, na ponta da língua, a receita infalível para a mudança, quando, quase sempre, está em destaque, que não será mais preciso penalizar com novos impostos. Assumiu e, em seguida, o discurso passa a ser outro: “Estamos tomando todas as medidas necessárias. Porém, as dificuldades são grandes, precisamos do sacrifício de todos, ou será o caos”. Traduzindo: metem a mão, novamente, no bolso de quem?

E, por estranho que pareça, aquela jura de que os inadimplentes serão penalizados e os sonegadores chamados ao bom caminho, acaba apenas em promessa. Esbarram em máquinas administrativas enferrujadas, servidores desmotivados, ou nos labirintos do judiciário.

A carga tributária está asfixiando aqueles que são assalariados e que não têm nenhuma alternativa para escapar ao sufoco. Quem pode, foge para a informalidade e ativa um mercado que, estima-se, em grandes centros urbanos, já movimenta, por baixo, cerca de 30% do comércio. Aí não há recolhimento de impostos e não se contribui para a Previdência.

Vejamos um outro contra-senso: durante muito tempo, recebemos informações didaticamente perfeitas de que a suba de alguns produtos (entre eles o pãozinho nosso de cada dia) e as tarifas públicas deviam-se ao fato de que o dólar quase batera nos quatro reais. No entanto, o dólar baixou (há muito tempo que está abaixo dos três reais) e não se viu ninguém se mexer para também baixar o preço dos produtos e das tarifas para o consumidor.

Estamos vivendo um tempo de deturpações: a máquina inviabilizou-se e passa a saquear o bolso do contribuinte, pois não lhe oferece os serviços necessários em áreas elementares – saúde, educação, segurança – com uma bitributação (ou já não seria multitributação?) forçada, e se precisa comprar estes serviços de terceiros. Mesmo assim, aumenta a carga tributária sobre quem recebe salários ou vê, em qualquer produto ou serviço, tornar-se escandalosa a parcela que é direcionada para o governo, através de impostos.

As promessas para 2004 são de que as mudanças vão começar. Claro que precisamos acreditar. Até porque, as administrações, a partir do momento que são eleitas, deixam de ser partidárias e passam a ser de todos os cidadãos.

Só que, infelizmente, de bem intencionados até o inferno está cheio.

Os planos, para que isto aconteça serão ortodoxos, ou heterodoxos? Para a população, isto não importa. Até porque está é a conta da sociedade. Que tem que ser resgatada, o mais rapidamente possível. Foi dado o prazo de um ano para que o governo pudesse se organizar e dizer a que veio. Não acredito que esta mesma sociedade não venha, agora, pedir o resgate do seu crédito.