Corpo e espírito


Pensei muito a respeito e vou ser obrigado a confessar: sou um explorador de idosos! Pois é, não se engane quem pensa que eu tenho cara de bom moço e cuido muito bem dos meus pais – seu Manoel e dona França. Está redondamente enganado. Na verdade, são eles que cuidam de mim. E muito bem!

Somente para mostrar o quanto as aparências enganam. O certo é que temos uma convivência proveitosa para ambas as partes: como o meu apartamento é geminado com a casa deles, usufruo dos benefícios de uma casa, com a privacidade dos meus “cantinhos”. Claro que os resmungos também acontecem. Mas, podem ter certeza, bem mais de minha parte do que da deles.

Portanto, não me coloco como regra no convívio com pessoas da terceira idade, mas como exceção. No entanto, infelizmente, tenho recebido muitas mensagens em que as pessoas contam o sacrifício em coexistir com um idoso quando lhe falta a noção da realidade. Os casos são muitos: Alzheimer, câncer, perda de capacidade motora e das funções cognitivas. Na maior parte das situações, digo que não há palavras para consolar ou estimular, mas que incluo estas pessoas em minhas orações.

São muitos os esforços para manter o idoso em relações de sociabilidade, de atividade física e de exercício mental. Há ainda os casos em que é preciso utilizar-se de “lares geriátricos”, onde, quase sempre, há um sentimento de culpa, por mais que se saiba que é a melhor maneira de dar-lhe um atendimento. Não há fórmulas: por este motivo, os geriatras aconselham a qualificar a vida em todas as suas etapas e isto se dá no convívio familiar, na manutenção de amizades e atividades de fé. Admiro aqueles que abrem mão de confortos para manter pais e avós em família, sabendo que a vida é uma espécie de investimento, pois o que faço agora, espero, façam por mim mais tarde.

Prezo muito, também, as “meninas” do “Voltando à sala de aula”. Aposentadas e na terceira idade, elas sabem de todos os seus problemas, mas não se dobram ao destino: enfrentam, brincam com a vida, para que a vida não brinque com elas. E elas sabem que gosto de olhar bem nos olhos daqueles que têm paciência em acompanhar as minhas palestras e dizer: “morrer, pode-se morrer jovem, em espírito. Mas é possível, também, encontrar juventude em olhos de mais de 90 anos, que souberam manter ativos o corpo e o espírito”. Em alguns casos, resta apenas o olhar que diz o quanto aproveita o momento presente, já que o corpo não responde mais, ansioso por dar e receber carinho, num dos mais lindos atos de fé.