CPMF, bingo e deficientes


Deu o primeiro passo no Congresso Nacional a renovação da CPMF – Contribuição Provisória sobre Movimentação Financeira. Era “contribuição”, para colaborar com uma ação emergencial; “provisória”, com um período de vida curto; e o final, todos sabem, para mexer na parte mais sensível do nosso corpo, já sofrido, que é o bolso. A CPMF não é cria deste governo, mas embora tenha sido bem intencionada - o ministro Jatene queria um financiamento para a saúde - acabou caindo no caixa único do governo e no ralo já tão conhecido dos gastos públicos.

A contribuição tira um percentual de todas as movimentações feitas em contas bancárias e já deveria ter sido extinta. Não o foi e sequer está sendo reduzida até não ser mais necessária. No entanto, tristemente, o que aconteceu foi que, desviada, deixou a saúde e outras ações sociais do jeito como vemos hoje, com denúncias em praticamente todos os noticiários.

Numa novela, dias atrás, presenciei a cena em que a filha visita o pai, enxotado de casa e que não queria nem pensar em trabalhar. Ela, ao se despedir, alcança alguns reais, fruto de seu trabalho. O pai faz de conta que recusa, sem qualquer convicção. A filha sai e ele, com expressão de alegria, agita o dinheiro frente às câmeras, sorri e diz: “hoje tem bingo!”

Olhando a realidade local, vemos como a falta de sensibilidade social faz com que burocratas se especializem em generalizações. Uma delas aconteceu em Pelotas: alunos com necessidades especiais, com direito à carteira para uso de transporte coletivo, tiveram confiscado o passaporte, por um motivo: a família tem renda familiar maior que três salários! A insensibilidade se manifesta por desconhecerem que estes garotos precisam de diversas locomoções ao longo do dia e que, unidos aos gastos com medicações, tratamentos médicos e manutenção da família, a renda se torna exígua. Em muitos casos, vão ter que abandonar atividades que são tão importantes no seu processo de socialização!

A CPMF vai passar no Congresso. O governo continuará usufruindo dos recursos destinados a atender, inclusive, aos excepcionais, que pedem o retorno do que é entregue à máquina do Estado, no transporte coletivo - uma concessão pública. Fica a impressão de que uma figura “pública” olha pela televisão e diz: “hoje tem bingo!”. É preciso colocar os que “nada sabem” no seu lugar: funcionários do Brasil, trabalhando num serviço que não é de graça, pois mantidos com impostos que somente deveriam existir com a aprovação direta da população e para atender as reais carências da nossa gente.