Deboche


Poucas são as palavras da língua portuguesa que me desagradam com tanta intensidade como esta: deboche, que fica situada entre o cinismo e o preconceito. Pode ser uma atitude ferina, uma expressão carregada de duplo significado, ou apenas um olhar e uma palavra arrogante.

Pois foi a atitude de um dos engenheiros que fiscalizava a situação das casas às margens da Marginal Pinheiros, em São Paulo, onde afundou a estrutura de uma linha do metrô. Entrando em algumas, já tendo a estrutura prejudicada com rachaduras nas paredes e afundamentos dos pisos, pediu um cabo de vassoura, bateu no teto e disse: “o problema são os cupins.”

É de ficar pasmo! Como é que alguém, em sã consciência pode brincar com a segurança alheia? Como é que um técnico – dito responsável – percebendo todos os sinais do que iria acontecer, não interdita a área, priorizando as vidas humanas, mesmo que em detrimento dos investimentos financeiros feitos no local?

Nesta hora, explicações são insuficientes pois a imagem é dolorosa e um fiasco para a construção. Sem contar as vidas ceifadas, pois embora o número seja “reduzido”, não há argumentação: uma pessoa morta já seria motivo de severa condenação.

Não gosto quando lembram a frase de que “não somos um país sério”. Nossa gente é séria, assim como muitos daqueles que atuam em serviços de fiscalização. No entanto, a mácula fica por conta dos que se julgam acima do bem e do mal, com o direito de dizer o que querem. Quem diz uma frase como esta: “o problema são os cupins”, vestiu o manto da arrogância, porque sabe que - infelizmente - nada lhe vai acontecer, a não ser uma possível advertência.

Pela forma como as pessoas se manifestavam na televisão, o que desejavam, apenas, era uma orientação adequada para preservar suas vidas e seus bens. Tiveram, em troca, o deboche e casas destruídas. Podem ter certeza, a dor foi dupla: o sentimento de perda e a impotência diante de uma estrutura privada, que deveria ser fiscalizada pelo poder público, que não sabe o que fazer, pois sem a sensibilidade para lidar com o ser humano, num momento de carência.

Resta o inconformismo e a certeza de que nós, educadores, precisamos preparar melhor os futuros profissionais, começando por incutir princípios éticos e morais na mais tenra idade, passando pelos bancos escolares. Esperando que, numa situação como esta, não nos deixem com a sensação de que erramos em algum lugar, ao pronunciar uma frase infeliz, encoberta pelo deboche e o desprezo.