Deixamos marcas


Acompanhei uma série de palestras que falava a respeito de voluntariado e uma frase ficou brincando em meus ouvidos, daquelas difíceis de esquecer: “dedique-se a alguma coisa que faça a diferença para os outros. Senão, sua vida terá sido um desperdício”.

Juntei com a mensagem que chegou num arquivo enviado pelo Gustavo. Como a maior parte do material que recebo, tive vontade de, apenas, apagar. Mas a curiosidade venceu. Ainda bem. É uma das mais belas que já recebi.

Em síntese, contava do relacionamento de um menino que descobria o mundo e uma telefonista, na década de 50, que foi uma voz presente em muitas de suas dúvidas. No caso do garoto, era um tipo de pronto socorro; no da atendente, era uma compensação por não ter filhos.

Mesmo assim, tempos depois, com muitas lições de vida aprendidas, mas tendo guardado sempre saudades da voz, retornou à cidade e decidiu encontrar Sally, a pessoa que o atendia. Já não foi mais possível, porque ela morrera. Mas deixara uma mensagem: "Diga a ele que eu ainda acredito que existem outros mundos onde a gente pode cantar também." Fora motivado pela perda de um passarinho, cujo consolo só viera quando dissera frase semelhante.

Entendeu, então, o mais importante no “não dito” da mensagem: nunca subestime a “marca” que você deixa nas pessoas!

Foi relativamente fácil unir a solicitação de disponibilidade feita por aqueles que incentivam o trabalho voluntário, com as “marcas” que vamos deixando em nossas vidas.

Um trabalho recente na área de ocupação de mão de obra recém ingressando no mercado mostrou que há uma procura por aqueles que, mais do que uma formação acadêmica ou profissional, buscam interagir com o social, com alguma atividade que o retire da “volta do próprio umbigo”.

Percebendo que, mais do que preocupações com seu pequeno mundo, há um outro maior, onde somente livros e aulas não são suficientes. Precisam vir calejados pela compreensão de que o sofrimento próprio e alheio acaba deixando na própria carne os sinais que nos tornarão únicos ao longo da história.

Não há como não deixar marcas. Para que isto aconteça, é preciso que sejamos anulados pela história e não é o que queremos para nossas vidas.