Depois que os turistas foram embora


Manoel Jesus*

manoel@atlas.ucpel.tche.br

 

Cerca de 15 anos atrás, estava viajando e ouvindo um programa de rádio, quando foi contado o que acontecera em Gramado, durante dois anos: uma seca baixou o nível dos reservatórios e ficou claro que faltaria água para o abastecimento do município. Reunidos com o prefeito de então, os moradores preferiram abrir mão do fornecimento para as casas e pediram que não faltasse o líquido precioso nas torneiras de hotéis e pontos turísticos.

Lembrei-me desta história quando, durante a Fenadoce, ouvi críticas do tipo: havia dificuldade de acesso para a Feira; é sempre a mesma coisa; havia menos doce do que deveria. E outros tipos de choro, próprio de quem não sabe o que é um grande evento deste tipo.

Em primeiro lugar, uma festa do porte da Fenadoce tem que procurar trazer e fazer aqui ficar dinheiro de fora. Atrair o turista e fazer com que ele gaste nos estandes ou no comércio local. O dinheiro local, gasto na Feira, só vai fazer circular internamente nossos recursos. E não aumentar o seu volume.

Em segundo lugar, quem foi à Feira notou a preocupação de renovar, desde o desenho das mostras, passando pela área de alimentação, até em não buscar o megalomaníaco, mas valorizar a cultura local, a cultura gaúcha. Não faz sentido querer uma Feira apenas de doces. Isto não existe em lugar nenhum. Não tenho os números, mas não creio que aqueles que ali levam seus produtos não queiram retornar em próximas edições. É sinal de que pagaram bem, mas que o retorno, a curto e médio prazo, também é bom.

E qual é a lição de Gramado? Precisamos de uma cultura para o turismo. E esta tem que ser plantada em todos os cidadãos, que devem estar dispostos a dar desde uma simples informação de trânsito, até (porque não?) levar o turista ao ponto que deseja encontrar. Claro que também precisamos incentivar o seu retorno. E deu para ver que (aqui contrariamente à Serra, onde os preços muitas vezes são abusivos) houve a preocupação em ter preços baixos e acessíveis.

A Fenadoce é nossa. Mas não no sentido de ser uma Feira para consumo intestino. Pelo contrário, é nossa para vender nossos atrativos, propiciar negócios que aumentem o nível de emprego, que atraia cada vez mais o turista e o homem (as mulheres também) de negócios para nossa região.

Sem beicinhos, por favor. Vamos fazer nossas críticas depois que o turista for embora. Preferencialmente para nossas autoridades públicas e empresários que se atiraram ao trabalho, com uma visão de mercado que está quebrando os padrões tradicionais e que pode colocar Pelotas, enfim, no caminho do desenvolvimento.

 

*Mestre em Desenvolvimento Social