A dignidade de um emprego


A história foi contada por um amigo – mas muitos haverão de visualizar situação parecida que vivenciaram: durante uma festa de final de ano, o questionamento do menino era “por quê nem todos podem ser felizes?” Para a surpresa da pergunta, a incapacidade de uma resposta que não soasse como vazia. Ou falsa. E, então, uma outra pergunta: “e porque achas que nem todos podem ser felizes?” Algum tempo de silêncio e a resposta: “porque minha mãe não consegue trabalho”.

O menino não conhecera o pai, sua mãe estava desempregada, tinha mais dois irmãos. E viviam com a aposentadoria da avó. Difícil. Muito difícil.

Durante o ano que passou – 2003 – fomos motivados a dar a nossa contribuição a programas como o Fome Zero, do governo federal, ou o Mutirão pela Superação da Miséria e da Fome, da Igreja Católica e igrejas cristãs. No primeiro, as injunções políticas já levaram, inclusive, ao afastamento de um ministro. E não decolou. O segundo, pretende ser de conscientização. Teve algumas ações localizadas, mas também não conseguiu o seu intento.

Todos os projetos que desejam saciar a fome de uma população que chegou às raias da miséria são bons. No entanto, não são o suficiente. Programas que auxiliariam, de fato, especialmente os mais pobres, são aqueles que geram emprego e renda. São estes que recuperam a dignidade humana da capacidade de produção, obter o pagamento por seu trabalho e poder, por decisão própria, aplicar no que lhe convier.

Infelizmente, não há como pensar numa sociedade de pleno emprego, nem a curto, sequer em médio prazo. E é aí, justamente, que reside um dos maiores clamores sociais e uma dos elementos que inviabiliza a possibilidade de recuperação do nosso tão necessário pacto pela viabilidade econômica e social.

O estado não pode se eximir da sua responsabilidade de incentivar e mesmo de criar empregos. Se há uma fatia significativa que é regulamentada pelo mercado, há uma parcela da população que não tem qualificação necessária, mas que precisa sobreviver. Preferencialmente, gerando sua própria renda. Conseqüentemente, seu sustento.

Os números do desemprego, hoje, no Brasil, são assustadores, chegando próximos dos 20% da população ativa. Ou dizendo de outra forma: para cada cinco brasileiros que estão aptos a trabalhar, um está com os braços cruzados. E não é uma opção própria.

E quando o desemprego acontece, balança todas as demais estruturas: quem está desempregado tem dificuldade de estudar, de se relacionar bem com amigos e familiares, tem o medo característico da insegurança.

Muitos teóricos defendem a necessidade de se incentivar a força produtiva, conseqüentemente, o incremento da economia. E aí, tenham paciência, tem que entrar a mão da administração pública.

Infelizmente, um ministro foi infeliz ao parodiar um seu antecessor e dizer que é preciso fazer o bolo crescer, para depois dividir. Não há mais tempo. Além de repartir o bolo propriamente dito – o pão nosso de cada dia – é tempo de reverter um quadro que fica, cada vez mais, assustador. Já temos algumas gerações com dificuldades de conseguir emprego. Quanto tempo mais agüentarão? E a que custo? Para estas questões, a resposta não pode estar somente na economia. Transita por todas as demais áreas, em especial, a da solidariedade e da dignidade humana.