Discurso e Prática


Quem já nasceu na geração do computador não tem maiores problemas. Não sei se a expressão correta é “assimila” ou “introjeta” facilmente a linguagem e os atalhos oferecidos pela informática. Mas quando ouvir alguém dizer que tem “saudades da máquina de escrever”, então, cuidado. Você tem pela frente uma pessoa com, no mínimo, algum receio de enfrentar a nova tecnologia. Para não dizer que existe um preconceito estabelecido pelo novo instrumental.

O glamour do tic-tac de uma máquina de escrever pode servir como elemento característico de uma cena de um filme rodado na metade do século passado: O depoimento policial, tomado em clima noir, em meio a uma bruma causada pela fumaça dos cigarros, tinha como fundo um escrevente que marcava o ritmo da cena fustigando um teclado.

Só que, embora os suspiros, este tempo já passou. Entre o lembrado pelo “bom e saudoso” estilo boêmio de fazer redação e os “futuristas”, que praticamente já entraram para dentro do computador, temos a maior parte da população, que precisa aprender a fazer uso das novas tecnologias como extensão para a sua capacidade produtiva, especialmente em termos intelectuais.

No entanto, é preciso ter cuidado, porque, na maior parte das vezes, as novas tecnologias chegam antes ao discurso do que à prática. E aqui retornam as perigosas expressões generalistas: “todos os estudantes estão na era da Internet”, “a maioria da população já desfruta desta tecnologia” e outras do gênero que impregnam o discurso e eliminam os contornos de objetividade que deve caracterizar a informação.

Pesquisas demonstram que o acesso à informática e a sua teia de serviços ainda é relativamente reduzido, inclusive no meio escolar. Mesmo com todo o ufanismo dos “pregadores da era informatizada”, podemos ter certeza de que uma significativa parcela da humanidade ficará marginalizada do acesso a estes recursos.

Por outro lado, vemos, absurdo dos absurdos, os surtos políticos capazes de atirar para dentro das escolas computadores, impressoras e outras máquinas, sem a menor sensibilidade de que é necessária a preparação de professores que conheçam o recurso e, de preferência, não se encantem pelo meio, mas sim com a possibilidade que ele tem de auxiliar no desenvolvimento do aprendizado, na construção do conhecimento.

Desnecessário dizer que muitos elementos afetam esta nova perspectiva: um professor desmotivado por fatores profissionais e pessoais, uma estrutura que somente quer “fazer imagem”, alunos e professores com uma idéia errada de sua utilização.

Bem, daí a dizer que “o computador é apenas uma máquina de escrever com alguns recursos a mais”, é um passo. Infelizmente. E está se perdendo o “bonde da história”. As experiências autenticamente profissionais com este meio, inclusive em áreas de baixa renda, mostram como pode se descortinar o mundo em todos os segmentos da população, com educadores que também tenham, não perdendo o sentido do comunitário, uma saudável e sensível visão de mundo.