Do anúncio ao marketing da fé


Pe. Zezinho

- Nas suas colocações em artigos, rádio, televisão detecta-se uma atitude de quem franze a testa ao ouvir falar de marketing da fé. Podemos falar deste assunto?

- Por favor. O assunto merece um capítulo especial. Eu até quero falar disso. De tal maneira se fez a cabeça de alguns cristãos, que o neoliberalismo virou dogma e a cauda que ele balança muito bem, o marketing, também se tornou um dogma intocável. É muito comum ouvir cristãos falarem do neoliberalismo como se fosse sinônimo de modernidade de democracia, - e não é - e do marketing como sinônimo de evangelização eficiente, e não é.

- O marketing mente?

- O marketing abusa das palavras “O melhor, o mais, o maior, o único”, sabendo que mente. Não bate com os evangelhos. Nós sabemos que fulana não é a mais bela, nem sicrano o maior expoente, mas como eles têm marketing, outras moças mais bonitas e cantoras bem mais competentes não são reconhecidas, e cantores com muito mais gabarito não vendem nem chegam lá porque ninguém fez o seu marketing. O marketing não divulga nem o melhor nem o mais competente e sim o que mais vende. Foi o bom marketing, já naquele tempo, que atribuiu a Américo Vespuccio o que era façanha muito mais de Cristóvão Colombo. Mas Américo falou mais e nos lugares certos. Um marinheiro que raramente pôs os pés num navio deu seu nome ao que todos reconhecem que foi mérito e outro. O marketing faz isso: põe em primeiro ou no pedestal não quem fez mais e merece, mas quem faz mais barulho ou tem melhores agentes.

- Mas não há verdades?

- É claro, mas as mentiras são tantas que fica difícil falar de marketing e da fé. Marketing significa mercadejar. O objetivo é vender um produto. Jesus não aceitaria injustiças. Ele certamente não admitiria fazer adeptos a qualquer preço e com qualquer método. Por isso condenou os fariseus hipócritas que faziam de tudo e moviam céus e terra para fazer um adepto e depois o tornariam pior do que eles. Era Jesus condenando o marketing dos fariseus, que queriam adeptos e número, e não qualidade. Foi Jesus quem falou do pequeno rebanho, foi ele quem disse que quem o seguisse teria cruzes e problemas, foi ele quem disse que quem quisesse entrar no seu reino deveria se fazer o menor, foi ele quem disse que era preciso perder para ganhar. O marketing não entende esses conceitos. Para ele, o sujeito tem que se sentir vitorioso, glorioso, vencedor. Não se deve falar de coisas negativas. Pedro censurou Jesus por ele falar de sua morte. Jesus o chamou de Satanás. Acho que ele chamaria de Satanás todos que pregam uma religião que só elogia e nunca denuncia nada. Um religioso não pode fazer isso. Um dia terá que denunciar não só os pecadores de sua igreja, mas também seus amigos que mentem para vender seus livros ou suas obras. Foi isso que me levou a não aceitar propostas de trabalho com pessoas que sabia que não tinham a mesma visão que eu sobre divulgar produtos e anunciar a fé. Para mim, a fé não é um produto. Não pode ser tratada como se trata uma nova marca de sabão em pó.

- Alguém está fazendo isso?

- Muitos católicos e muitas igrejas evangélicas.

 - Pode ser mais específico?

- É só ver alguns programas de televisão e ouvir o rádio para ver o peso das palavras: sucesso, vencedor, vitorioso, glorioso. São palavras de marketing. Podem ser traduzidas como melhor, mais, acima, primeiro. Subentende guerra e vitória contra o inimigo que nem sempre é o demônio. Inclui outras igrejas e outros grupos dentro da própria igreja. São palavras de guerra e de competição. Os vitoriosos e abençoados por Deus... Mas quando eles perdem logo, outro vai ser punido um dia. É uma linguagem desonesta. Não tem caridade.