Encantos e desencantos
na editoração eletrônica


Manoel Jesus*

manoel@atlas.ucpel.tche.br

 

Resumo: O desenvolvimento do processo de informatização no ensino de Comunicação está exigindo que se pense, em disciplinas específicas – como é o caso da Editoração Eletrônica, em maximizar o aproveitamento da técnica, como instrumental para expandir as fronteiras do conhecimento.

Palavras-chaves: Editoração eletrônica, novas tecnologias e contextualização cultural.

1. As previsões e a realidade do momento

A última década do século XX atordoou o mundo da Editoração Eletrônica. As novas tecnologias traziam uma ameaça: está em vias de ser extinto todo e qualquer tipo de impresso. Pensava-se, então: “de hoje em diante, este mercado vai diminuir, até ser, definitivamente, substituído por novas alternativas, como a leitura em telas de computador, no vídeo da televisão, ou nos aparelhos portáteis”.

Passado o estágio do encantamento, a Editoração Eletrônica não foi extinta e sequer vê seus horizontes com tanto pessimismo. O susto inicial – já encarado por outros meios de comunicação (afirmou-se que a televisão acabaria com o cinema, e também seria a responsável pela morte do rádio) – deu lugar à busca pelas novas perspectivas.

E elas se mostram encantadoramente variadas. Os recursos oferecidos pelas novas tecnologias propiciam a agilidade do jornalismo on-line, as novas formatações de jornais e revistas e a conjugação de esforços de diversas mídias para, em última instância, servir ao leitor, ouvinte e espectador.

Então, o que há para ser analisado? Na verdade, o que vislumbramos, hoje, pode, tranqüilamente, parecer ultrapassado num par de anos. Paciência. Incumbe ao pesquisador monitorar o futuro em busca dos elementos que o auxiliem na construção do presente, levando em conta a experiência passada.

Profissionais da educação que trabalham na área de editoração eletrônica estão bem próximos do passado recente (onde professores de Jornalismo olhavam com desdém para a impressão em off-set – classificada como “um modismo”), trabalham com recursos que mudam no mesmo instante em que estão sendo utilizados, e projetam para o futuro a possibilidade de que, em se sendo capaz de conjugar conhecimento e criatividade, se possa romper com todas as perspectivas projetadas.

Nunca, como nesta virada de século, tivemos tantos recursos à disposição para socializar o conhecimento.

E é esta perspectiva que leva a pensar nas possibilidades que um professor, hoje, tem de indicar caminhos, auxiliando o aluno a conhecer (e saber que é apenas um instrumento) as novas tecnologias, aperfeiçoar o seu texto (tirando-o do marasmo da mesmice) e provocando o seu interesse por uma contextualização cultural (que amplie as condições de compreensão das situações que pode vivenciar, tornando-o um autêntico comunicador).

Assim sendo, estimula-se o professor a garimpar constantemente em busca de jogar para mais longe os seus horizontes e possibilita-se ao aluno o instrumental capaz de fazer com que ele também seja um desbravador da Comunicação.

2. Leitores, internautas e...

Quem já nasceu na geração do computador não tem maiores problemas. Não sei se a expressão correta é “assimila” ou “introjeta” facilmente a linguagem e os atalhos oferecidos pela informática. Mas quando você ouve alguém dizer que tem saudades da máquina de escrever, então, cuidado. Você tem pela frente alguém com, no mínimo, algum receio de enfrentar a nova tecnologia. Para não dizer que existe um preconceito estabelecido pelo novo instrumental.

O glamour do tic-tac de uma máquina de escrever pode servir como elemento característico de uma cena de um filme rodado na metade do século: O depoimento policial, tomado em clima noir, em meio a uma bruma causada pela fumaça dos cigarros, tinha como fundo um escrevente que marcava o ritmo da cena fustigando um teclado.

3. O elemento eletrônico no Jornalismo

Entre o lembrado pelo “bom e saudoso” estilo boêmio de fazer jornalismo e os “futuristas”, que praticamente já entraram para dentro do computador, temos a maior parte dos alunos e professores, que precisam aprender a fazer uso das novas tecnologias como extensão para a sua capacidade produtiva, em termos intelectuais.

O primeiro elemento que se nos apresenta é que, apesar de hoje os recursos gráficos estarem mais rápidos e menos pesados na rede mundial de computadores – a Internet - do que há alguns anos, muitos são aqueles que continuam sem acesso a eles, incluindo professores e alunos.

Os estudiosos dos novos elementos oferecidos pela rede, e aqui se pode citar Kilian1, salientam que, quanto mais trabalho o usuário passa para acessar o conteúdo de um endereço eletrônico – um site, maior é a expectativa quanto ao que ele irá encontrar. Caso fique desapontado, dificilmente o leitor voltará a esse endereço.

Mauro Malin, redator-chefe do Observatório de Imprensa, disse sobre jornalismo na Internet: “o divisor de águas decisivo entre o jornalismo impresso e o jornalismo online é o conteúdo”2. Para ele, o texto eletrônico continua a ser escrito com as mãos e lido com os olhos, mas a maneira de pensá-lo e registrá-lo tem mudado de forma radical.

E quais poderiam ser estas mudanças radicais?

Os Estados Unidos, como elemento de ponta na discussão da utilização on-line, durante vários anos, concentrou as atenções nas tecnologias, em como ganhar dinheiro com a Internet, e estratégias publicitárias para anunciantes on-line. Somente a partir de 1999 – há dois anos – é que o conteúdo começou lentamente a tomar seu lugar.

Cremilda Medina é quem ensina:

“A mensagem jornalística resulta da articulação de um conjunto de elementos estruturais característicos do processo de informação. Da realidade, atual e significativa para o homem de hoje, à representação que se faz dessa realidade num veículo de comunicação, a mensagem codificada pode ser analisada nas relações dos principais elos do processo”3.

Este é um caminho. Um dos grandes trunfos que as novas tecnologias colocam nas mãos é a interatividade, uma forma que pode fortalecer as relações. Uma experiência foi citada por Howard Witt, do Chicago Tribune.  Registra que as pessoas estão participando mais das questões do jornal. Há dois anos, quando morreu o colunista Mike Royko, em apenas uma semana, 700 leitores mandaram e-mails de condolências. Para o editor, se o caso tivesse acontecido cinco anos antes, apenas algumas pessoas teriam escrito alguma carta ao editor. 

4. Na tela e no papel: o texto em formatação

Não poderia deixar de se dar uma atenção especial para o elemento jornalismo na web.

Neste caso, valem todas as boas regras do Jornalismo. Algumas até são acentuadas. É o caso da correção, relacionado com a clareza, pois escrever corretamente auxilia os leitores a entenderem com mais facilidade uma mensagem. Se for um endereço eletrônico (site) deve ter um emprego acurado da língua, com boa gramática e palavras escritas sem erros.

Kilian alerta para alguns perigos, pois toda mensagem tem dois componentes, um verbal e outro não verbal. “Se eles estão em conflito os leitores tenderão a acreditar na mensagem não verbal. Todo site profissional ou de negócios carrega a mensagem não verbal da competência; erros na base da linguagem e informações erradas cortam essa mensagem”4.

E num encontro entre a velha e boa folha de papel e os recursos da informática, ainda encontram-se muitos leitores desejosos de imprimir o texto para facilitar a leitura. Possivelmente, resquícios de uma raça em extinção.

Neste caso, o conselho é simples: seguidas todas as boas normas de um bom texto, produzido o material eletrônico a ser veiculado, anexados todos os elementos que enriquecerão a leitura, perca um pouco do seu tempo e imprima seu trabalho. Será uma boa chance de antecipar os problemas que os leitores poderão ter. Desse modo, eles poderão ser resolvidos antes que os usuários tenham acesso.

 

5. Uma visão de conjunto

As Escolas de Comunicação que iniciam seus cursos com as disciplinas generalistas sentem que os alunos têm dificuldades de entender o motivo pelos quais estas disciplinas estão presentes nas grades curriculares. No entanto, ao final do curso, muitos são aqueles que se queixam de não ter dado a atenção devida a seus conteúdos e, conseqüentemente, terem dificuldades de compreender, analisar e produzir textos que não somente flagrem um momento, mas que dêem ao leitor a compreensão de suas causas e conseqüências.

Embora as disciplinas “técnicas”, em tese, não tenham nada com isto, a verdade, não é bem assim. O que acontece com a base de formação dos alunos em disciplinas como sociologia, filosofia, economia e política, determina um maior ou menor rendimento, uma maior ou menor capacidade de contextualização.

 

6. Perspectivas e conclusão

O ensino de Comunicação necessita de espaços de discussão e de instrumental que propiciem ao professor e ao estudante a discussão do processo didático-pedagógico, especialmente no que se refere a áreas específicas, como é o caso de Editoração Eletrônica, com todas as disciplinas que lhe são interligadas.

Embora, hoje, se cobre do professor que ele traga para a sala da aula a experiência profissional acumulada no mercado, é necessário que se leve, também, em consideração, o aprimoramento do processo didático-pedagógico para enfrentar o meio acadêmico.

Em especial nas chamadas “disciplinas técnicas”, muitas vezes, tem-se deixado de lado esta preocupação, o que envolve o professor num “contínuo fazer” e se marginaliza a possibilidade do seu aperfeiçoamento, deixando esta alternativa para disciplinas ligadas à Teoria da Comunicação, ou generalistas dentro das Escolas.

O que se deseja é que se atente para esta preocupação – a formação do professor e do aluno para atuar em Editoração Eletrônica – levando em consideração todas as possibilidades que hoje se coloca à disposição do meio acadêmico, seja em nível de docência, ou de discência.

Como resultado, nasceu um Projeto de Pesquisa, aprovado pela Universidade Católica e que, ao longo deste ano, vai sondar professores e alunos a respeito. O desejo é de que se possa partilhar reflexões e formas de atuação. Este pode ser um excelente jeito de mergulharmos no maravilhoso mundo que se descortina, socializando um instrumental que é exatamente isto: um instrumental e não um fim em si. Os recursos da informática precisam ter este “gostinho especial” de coisa que não vai fazer o que deveríamos fazer, mas estender nossos horizontes para além das perspectivas que tínhamos até então.

Referencial bibliográfico

1. Kilian, Crawford. Writing for the Web. Vancouver: Self-Counsel Press, 1999.

2. Observatório de Imprensa é um programa da TV Educativa que se propõe a analisar questões da imprensa brasileira e conta também com um site na Internet, acessível através de http://www.uol.com.br  

3. MEDINA, Cremilda. Notícia – Um Produto à Venda, São Paulo: Summus Editorial, 1988.

4. Kilian, Crawford. Writing for the Web. Vancouver: Self-Counsel Press, 1999.

Também consultados:

LEVACOV, Marília et alii. Tendências na comunicação. Porto Alegre: LP&M, 1998.

LÉVY, Pierre. As Tecnologias da Inteligência – o futuro do pensamento na era da informática. São Paulo, 1996.

NEGROPONTE, Nicholas. A Vida Digital. São Paulo: Companhia das Letras, 1995.

PRODANOV, Cléber Cristiano. Manual de Metodologia Científica, Novo Hamburgo: Editora Feevale, 1997.

SQUIRRA, Sebastião. Jornalismo online, São Paulo: Editora Arte e Ciência, 1998.

STARLING, Andrew. Foxglove – Writing for the Web. http://www.foxglove.co.uk/features/write.htm (1999)

The Pointer Institute for Media Studies: http://www.poynter.org (1998)

 

*Mestre em Desenvolvimento Social